Gravidez imaginária. Por que acontece?

A menstruação está atrasada, os seios crescem, a barriga também, os enjôos se tornam freqüentes. A família comemora e já faz planos para o bebê. Na consulta ao obstetra, no entanto, a decepção. O médico examina e confirma: a gravidez é psicológica ou, como dizem os especialistas, trata-se de uma pseudociese.

Razões que a razão desconhece

"Isso acontece com mais freqüência entre os animais, principalmente com as cadelas. Não é um problema comum em mulheres. A incidência é muito baixa", explica Cristina Milanez Werner, psicóloga e terapeuta familiar. "Algumas, no entanto, criam uma realidade fantasiosa e passam a acreditar nela.

Este é um exemplo de mitomania: a pessoa cria uma história, uma versão, uma explicação para alguns fatos (neste caso seios doloridos, abdômen distendido, ausência da menstruação) e passa a acreditar em suas próprias alegações", conclui.

Os motivos são muitos, começando pela insegurança da mulher em relação ao amor do marido. Neste caso, a gravidez seria, inconscientemente, uma maneira de se unir mais ao companheiro.

"Pode ser, também, que a mulher esteja tentando engravidar há algum tempo, sem conseguir. Quando muda de médico, na esperança de encontrar uma solução para suas dificuldades, e inicia um novo tratamento, pode acreditar que está grávida verdadeiramente. Esse é apenas mais um motivo, mas podem existir muitos outros, como a pressão familiar para ela engravidar, sendo a única do clã ainda sem filhos."

Do ponto de vista médico

Em todo esse processo, o obstetra tem um papel importante, o de ajudar a mulher a entender que sua gestação não passa de uma fantasia. Segundo o Dr. Edilson Ogeda, ginecologista e obstetra do Hospital Samaritano/SP, quando ela diz apresentar os sintomas de gravidez "o primeiro passo é solicitar exames clínicos, como a ultra-sonografia e o Beta HCG."

"Se o exame de sangue dá o resultado negativo e a gravidez é puramente psicológica, a mulher pode acreditar que o laboratório errou. E sempre tem a história de uma amiga que teve resultado negativo, mas que, de fato, estava grávida. Argumentos não faltam para reforçar a hipótese da gravidez. Há pessoas, ainda, que sofrem de um transtorno emocional, andam de médico em médico com a certeza de que esperam um bebê", afirma o obstetra.

Como aparecem os sintomas?

Mas, como explicar o fato de, muitas vezes, a mulher sentir enjôo, os seios crescerem e a barriga também? O Dr. Edílson explica: "O nosso emocional é um mistério e influencia nosso corpo; isso é um fato. A mulher que passa por uma gravidez psicológica força, involuntariamente, uma distensão abdominal, só que o útero não cresce."

O obstetra comenta um fato curioso. Na maioria das vezes, a mulher que sofre de pseudociese continua menstruando, mas acha que o sangramento pode ser um princípio de aborto; aconteceu com uma paciente sua. "Ela estava iniciando um novo relacionamento e tinha sido submetida a uma laqueadura. Seu companheiro não tinha filhos e eles desejavam muito um bebê. Apesar de não estar grávida, ela passou a se comportar como tal e a acreditar que o sangramento menstrual era um princípio de aborto."


O papel do obstetra

"Quando procuramos um médico, é porque temos confiança", diz a Dra. Cristina. "Ao perceber que a gravidez é psicológica, ele não pode desqualificar a mulher. Se estiver no início da suposta gestação, deve conversar com muita diplomacia. Explicar que não foi daquela vez, mas que pode ser da próxima, por exemplo.

Agora, quando a mulher já está passando por esse problema, há alguns meses, apresenta uma barriguinha e muda com freqüência de médico, por não acreditar no que ele fala, a atitude deve ser outra. O recomendado é procurar seu companheiro e mostrar a existência de um quadro psiquiátrico sério. Em muitos casos, pode ser necessário até o uso de medicamentos que um psiquiatra poderá receitar."


O melhor tratamento

"A recuperação vai depender de própria estrutura interna da mulher e do apoio das pessoas mais próximas: pais, sogros e, em especial, o companheiro. Ele deve valorizá-la, dizer o quanto é amada, independentemente de ser mãe ou não. Uma atitude errada seria desmoralizá-la, dizer que está ficando maluca: isso não ajuda em nada", explica a Dra. Cristina.

"O tratamento psicológico é fundamental. Nesses casos, não recomendo a terapia individual, mas a de casal, ou mesmo familiar. É preciso descobrir porque é tão importante, para essa mulher, dizer à família que está grávida. Muitas vezes, pode ser até pressão dos pais ou dos sogros", finaliza.


Por Lilian Luz
Consultoria: Dra. Cristina Milanez Werner, Mestre em Psicologia Clínica e Especialista em Terapia Familiar Sistêmica e Dr. Edilson Ogeda, ginecologista e obstetra
Fonte: http://www2.uol.com.br/topbaby/conteudo/secoes/gravidez/saude/1085.html
.

Comentários