Psicanálise com Crianças


Quando uma criança precisa de atendimento psicológico?
Quando apresenta alguma dificuldade em seu desenvolvimento: quer seja motor ou psíquico. Algumas crianças não se desenvolvem dentro da faixa etária esperada mesmo não apresentando problemas neurológicos que afetem seu desenvolvimento. Quando apresentam algum medo exagerado, ansiedade acima do normal, dificuldades para aprender, se concentrar em sala de aula, se socializar…Enfim, toda vez que tenham alguma dificuldade que a atrapalha e traz sofrimentos. Ou apresentam dificuldade(s) que os pais ou a escola não sabem conseguem resolver.
Nesse caso é indicado que eles recorram a ajuda de um psicanalista, para que as crianças possam colocar em palavras seu sofrimento e assim encontrar uma forma de expressar o que sente em vez de adoecer.
A partir de que idade é possível o atendimento?
Temos a experiência de atender crianças desde a idade de 3 anos, mas existem trabalhos feitos desde o berçário com crianças que são consideradas “diferentes” das outras, que tem algum problema que desconcerta a medicina e mesmo tendo a seu dispor todo o aparato médico não respondem ao tratamento.
Em que se baseia o tratamento
Na escuta do discurso do paciente. Pois por estarmos na linguagem, podemos ser aprisionados pela palavra mas também, através dela, podemos nos curar. A psicanálise escuta o que os outros discursos deixam de fora, aquilo que se revela nas entrelinhas do que o paciente está dizendo e não está escutando. Trabalhamos com os sonhos, atos falhos, esquecimentos. Com o inconsciente.
Qual é a diferença entre a ludoterapia e a psicanálise com crianças?
Como o próprio nome situa, a Ludoterapia é uma terapia através do brincar.  È uma especialidade da psicologia que trabalha com jogos e brinquedos, utilizando-os como uma forma de “fala” da criança. A psicanálise com crianças não é uma especialidade da psicanálise e sim uma especificidade. Existem psicanalistas que escolhem não atender crianças. Tratamos o sujeito, independentemente de sua idade. Utilizamos também jogos e desenhos, mas tendo claro que uma criança fala e é neste ponto que trabalhamos, escutando o que nos dizem os pacientes. Pois enquanto ela brinca, também fala do que lhe acontece, encenam e nesse momento falam de outra cena, de outros acontecimentos que provocou angústia ou entendimentos equivocados. Conta o que aconteceu em casa, fala dos amigos, dos irmãos, da escola…dos sentimentos de inveja, ciúmes…E também através do jogo ela coloca em cena alguma situação angustiante que viveu e dessa forma se afasta do real ameaçador. No desenho ela expressa algo do seu psiquismo, por isso em vez de interpretar, nós a convidamos a falar sobre o que desenharam e aí ela tem a chance de falar sobre si.
Temos o exemplo de uma criança, que tendo uma determinada doença, é levada ao médico e “toma uma injeção”. Na análise ela encena que é a médica e ela é quem aplica a injeção. Assim, ela vive ativamente o que outrora viveu passivamente. E isso lhe possibilitará elaborar o acontecido para que isso não resulte em traumas.
O psicanalista tem a oportunidade de falar com o paciente e pedir para que ele fale sobre seus sentimentos e emoções, sem ir ao lugar daquele que vai ensinar ( professora) nem daquele que vai julgá-lo…
Que tipos de sintomas são mais comuns?
As queixas mais comuns são as dificuldades escolares, pois é nesse momento que a criança tem a chance de socializar com outros, fora do âmbito familiar e também tem que dividir, esperar, compartilhar… recebemos crianças que apresentam sintomas como:  troca de letras, dificuldade em aprender, repetência, dificuldade de concentração, de leitura, de estar em grupos, etc. Os professores tem uma função muito importante em relação a olhar e perceber o que acontece com seu aluno, pois assim, eles podem alertar os pais e encaminhá-los para procurar ajuda.
Porém essas queixas encobrem outras que aos poucos vão sendo faladas. À medida que o trabalho vai sendo realizado, vemos qual a posição que a criança ocupa na sua família, como ela é tratada, se os pais colocam ou não as regras e limites, como o casal de pais se relacionam, o que eles esperam deste filho e como ele responde a tudo isso.
Os adultos precisam levar em conta que a infância não é um paraíso. As crianças se angustiam, elas sofrem por não poder expressar o que sentem. Pois, são primeiramente “faladas”, por seus pais, depois elas portam a fala e tem esse meio de expressão. E mesmo assim, ou não encontram os significantes pertinentes aquele sentimento ou não são ouvidas. Acontece também de escutarem palavras desagradáveis, que carregam agressividade, e não é incomum que tenham inflamações no ouvido, tenham uma “virose”. Em outras famílias existe um excesso de escuta…. Pois são as crianças as que ditam as regras e leis. Os dois são nocivos: no ambiente onde elas “não tem voz”, ou naquele onde ditam as regras, elas sofrem e esse sofrimento acarreta seu corpo com doenças e sintomas, inibições, atrasos no físico e psíquico.
Se uma criança apresenta uma dessas dificuldades, não forem atendidas adequadamente, quais serão as consequências futuras?
Para resumir, podemos dizer que muitos adultos que atendemos hoje, apresentaram problemáticas na sua infância e não tiveram a oportunidade de falar em análise e resolverem. Pois não foi dado a devida importância ou os pais acreditaram que o tempo resolveria os problemas. Acontece que o tempo não resolve, o que acontece é que alguns sintomas são “trocados” por outros e outros… Esses sintomas podem novamente aparecer na adolescência (agravando o que deveria ser somente problemáticas próprias dessa idade) e depois atrapalham a vida adulta: desde problemas de relacionamentos, no trabalho e na relação com o outros.
Existem doenças ( bronquites, rinites, doenças de pele, diabetes, asmas, otites..) que mesmo a criança  sendo atendida e tratada com medicamentos os resultados não são satisfatórios, essas crianças se beneficiariam do tratamento psicanalítico?
Certamente. Tenho a experiência de atender crianças que tinham crises de bronquites, alergias e asma e faziam tratamentos medicamentosos, porém apresentavam uma melhora pequena, inclusive eram constantemente internadas de tão graves que eram suas crises. Através da análise puderam falar sobre o que lhes aconteciam na família e na escola e aos poucos foram representando seu corpo de outra forma. Antes elas eram medicadas, examinadas e não tinham a chance de falar sobre sua situação, sobre o que sentiam em relação a tudo isso.
Porque no Brasil cresceu o diagnóstico de TDHA (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e muitas crianças tomam medicamentos?
É comum encontramos nos dias de hoje muitas crianças com esses diagnósticos, porém precisamos ter muito cuidado, pois nem toda criança que é irrequieta, não conseguem ficar paradas e não prestam atenção tem hiperatividade. Ás vezes as crianças não tem disciplina, os limites não estão bem estabelecidos. Como consequência elas ficam “perdidas” sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É importante que essas questões não sejam confundidas com problemas neurológicos. Portanto, é imprescindível um diagnóstico bem feito para que a criança tenha a oportunidade de fazer o tratamento adequado.
Se uma criança com essas dificuldades não forem atendidas adequadamente, quais a s consequências futuras?
As consequências de um diagnóstico errado, acarreta em tratamentos inadequados, onde a criança tomará um medicamento desnecessário que não resolverá o problema e ainda terá efeitos colaterais e sofrimentos que poderiam ser evitados. Isso pode fazer com que a criança tenha seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico afetados.

É possível que quem necessite do tratamento psicanalítico sejam os pais e não a criança?
Sim. Muitos pais trazem seus filhos para que façam análise e descobrem que são eles os que precisam se analisar. Pois a dificuldade é deles, quer seja em cumprir a função de pai e mãe, e aqui eles se encontram em uma posição infantil, que os remetem a relação com seus próprios pais ou a dificuldades em estabelecerem regras e limites. E aqui também a dificuldade os remetem a questão da autorizar-se enquanto aqueles que mandam e portanto, estão em um lugar equivocados. Ou brigam na frente dos filhos, ….
Sabemos que não é fácil a função de mãe e de pai.  Ainda mais em um mundo como o de hoje, onde à maioria das pessoas não se dão tempo para saber o que desejam; existem todas as ofertas do mercado, os imperativos de uma felicidade extrema, de um consumo desenfreado, onde fica  “ proibido” por alguns discursos, que os pais frustrem seus filhos.
Existe quase um “dever” na conjuntura atual, de que os pais deem “tudo” o que seus filhos pedem. E isso é uma loucura que só poderá trazer sofrimentos tanto para os filhos quanto para os pais.
A dificuldade em se autorizar-se enquanto aqueles que ditam as regras é tão grande em algumas famílias que somente conseguem conter o corpo irrequieto dos filhos com medicação.
E o Brasil é o segundo maior receita-dor de medicamentos para TDHA, perdendo somente para os Estados Unidos.
Podemos concluir que o tratamento psicanalítico então é muito importante na infância?
Correto, quando uma criança tem a oportunidade de fazer análise, coloca para trabalhar seu inconsciente e isso a ajudará a resolver as questões psicopatológicas que estão impedindo-a de crescer,  que podem ser decorrentes de traumas sofridos, de demandas contraditórias de seus pais, conflitos com irmãos, sofrimentos com alguma doença orgânica recorrente, etc. e a análise lhe possibilitará desenvolver recursos psíquicos para enfrentar as situações de sua vida e isso as ajudará a atravessar uma adolescência sem grandes conflitos – salvos os que são comuns a essa fase – e assim poderão ter uma vida mais equilibrada e saudável.
E não somente a criança que se beneficia da análise, pois os pais também são tocados por essas mudanças. O analista também escuta seus pais, só não pode confundir  o lugar de um e do outro.
Por Andreneide Dantas

Fonte: http://www.blogdaescutaanalitica.com.br

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