Mãe Prematura


A Mãe prematura é seguramente a minoria mais negligenciada da história das instituições de saúde em nosso planeta.

Aos seus rebentos foi dada a alcunha de bebe prematuro, como se pertencessem à outra espécie que não a humana.

Seu filho foi desconsiderado como representante natural da vida humana por guardar necessidades de cuidado tanto mais extremas quanto mais extrema é a sua prematuridade, necessidades estas, entretanto plenamente atendidas durante seu período intra-uterino.

Sua condição de mãe antes do tempo do que era para ser é costumeiramente recebedora de quase nenhum cuidado a ela dirigido, resumindo-se muitas vezes ao carinho e as iniciativas pessoais do profissional cuidador, desligadas de qualquer política institucional de apoio e proteção à sua condição prematura.

Seu filho contabiliza por sua vez uma fonte inesgotável de mercado de trabalho, indústria de dispositivos e medicamentos, interesses empresariais de instituições e planos e de políticas de saúde, gerando um custo de milhares de dólares anuais que é muitas vezes empregado com qualquer critério, mas quase sempre desconsiderando a mãe prematura e sua intensa luta.

Mesmo os profissionais que trabalham nas Unidades Neonatais estão aptos a reconhecer e intervir em mínimas quedas de saturação de seus bebes, mas absolutamente alheios e desconhecedores dos mecanismos de apoio e acolhimento necessários para receber uma adolescente que aos 16 anos tem seu primeiro filho que é prematuro e entra chorando na Unidade.

Somos fanáticos por Dopamina, mas perdemos a alegria do abraço.
Conquistamos conhecimentos baseados em evidencias e esquecemos da imensa possibilidade que a acolhida nos permite atingir.
Somos os filhos da modernidade.

Durante milhares de anos a mãe prematura foi seguramente a única e principal cuidadora de seu bebe.
A Neonatologia ocupou o lugar da mãe, afastou-a de s eu filho prematuro, roubando-lhe o mátrio poder em nome da necessidade de tratamento e possibilidade da cura.
Criamos, agora sim, uma nova classe de mamíferos: os filhos da UTI.
Criamos um novo rotulo para essas valorosas e negligenciadas mães: as mães de UTI.
E as desprezamos enquanto interesse institucional.

Mas é necessário reverter essa desatenção, esse descuido.
É mais simples que equipar uma unidade.
É mais barato que qualificar um profissional.
Apoiar a mãe prematura deverá ser o grande diferencial para que seja atingida uma assistência equilibrada.
Valorizar a mãe prematura deverá retirá-la deste purgatório de negligencia para o qual ela foi exilada, devolvendo-lhe o mátrio poder em beneficio da saúde global de seu filho, que só existe por ela, que só existe com ela e por respeito a ele e ela é necessário que lhe seja devolvido.

Que as instituições despertem para esta necessidade.
Para o fato de que seus ideais embora passem pela administração de recursos, não podem se desvincular da atenção à mãe.

Mãe prematura:
Que seu destino seja premiado de reconhecimento e acolhida.
Que sua posição na gradação da importância do atendimento possa ser comparada um dia em eficiência e credibilidade daquela alcançada pelas aminas, pelos ventiladores e pelas incubadoras...
Que seu calor, mãe, que seu amor e que seu leite sejam a maior mola desse futuro delicado e delicioso como um sonho.

Que o homem de ciência aprenda contigo, mãe prematura, sua inesgotável lição de imenso amor.

Com carinho

Dr. Luís Alberto Mussa Tavares é pediatra neonatologista
 

Comentários