Aleitamento Materno e sua relação com a Psicologia e a Psicanálise

Para pensar o aleitamento no âmbito da psicologia:
MANEJO DO ALEITAMENTO: o que a psicologia tem haver com isso?

As questões de manejo do aleitamento materno têm sido praticamente ignoradas no âmbito da psicanálise e mesmo da psicologia em geral. A abordagem da amamentação pela psicanálise é historicamente restrita à questão da constituição subjetiva do bebê e seus desdobramentos nas fantasias inconscientes dos adultos. Diferentes autores, seguindo suas próprias linhas teóricas (Freud, Klein, Winnicott, Lacan) debruçaram-se sobre a experiência da dupla mãe bebê tendo o aleitamento como paradigma dos primórdios desta relação num sentido que pouco ou nada se refere à condições reais em que esta se dá. O manejo em si, seus entraves e facilitações parece restrito à puericultura. Além de uma certa abordagem psicologizante, que por vezes ignora os aspectos biológicos e sociais, a psicanálise parece responder com esta omissão a uma outra questão. Vejamos.

Quando o aleitamento ignora o sujeito

Historicamente o aleitamento esteve associado à incumbência central da vida das mulheres, a saber, a reprodução da sociedade. Como condição para a sobrevivência de qualquer bebê nas sociedades estáveis, aleitar não era uma questão, pois não havia substituto à altura. Sendo assim, as mulheres exerciam esta função e pronto. Já na modernidade as mulheres começaram a encontrar soluções por meio das amas mercenárias. Os estudos de Badinter (1980) sobre este tipo de prática e os altíssimos índices de mortalidade infantil são famosos por colocarem em discussão a existência do instinto materno. O envio do recém nascido para a ama era prática corriqueira e em certa medida funcionava como um “controle de natalidade” uma vez que, não havendo contraceptivos confiáveis e com o aumento das populações, os bebês passaram a sobrar na contabilidade social. Se nas sociedades estáveis a sobrevivência dos bebês era uma meta devido às dificuldades com alimentação e segurança, na modernidade o acúmulo de riquezas e alimento inverteu a equação. Com este acontecimento inédito as mulheres puderam começar a pensar se desejavam ou não aleitar e em que termos. Na medida em que suas vidas sociais se tornavam mais atraentes e os bebês se tornavam estorvos, as que podiam se livrar do aleitamento assim o faziam.

Esta assunção do desejo feminino para além das prerrogativas socialmente impostas do papel de reprodutora é muita cara aos estudos feministas e psicanalíticos na medida em que as psicanalistas mulheres puderam apontar para a questão do desejo da mulher que, como sabemos, ultrapassa o âmbito da maternidade. Muitas vezes, as contribuição destas profissionais têm sido no sentido de denunciar a misoginia do fundador da psicanálise. Em função do lugar de disputa que o aleitamento passou a ocupar no imaginário, ora representando a dominação masculina sobre o corpo da mulher, ora a realização do desejo feminino, o estudo desta prática pela psicologia passou se recobrir de novo tabu. O medo de compactuar com a imposição do aleitamento fez calar a psicologia neste âmbito, restando apenas interpretações psicologizantes sobre os fracassos e sucessos do mesmo, ignorando as condições históricas, sociais e biológicas.
Reservemos este impasse científico e social que opõe feminismo, psicanálise e manejo do aleitamento e nos voltemos para outra questão.

A transmissão cultural da mãe desnaturada

Temos debatido sobre a importância da transmissão geracional dos hábitos de cuidados com os bebês nas culturas estáveis (IACONELLI, 2012). Transmissão esta que pode dar a falsa impressão de que existiriam mães naturais, sem necessidade de aprendizagem, para quem o instinto bastaria. Difícil acreditar numa suposição que não serve nem para os filhotes de macacos, uma vez que estudos mostram que estes animais, quando privados da observação da relação sexual de seus colegas mais velhos se vêem incapacitados para o cortejo sexual na vida adulta. Embora o instinto sexual possa ser identificável nestes animais, ele não prescinde de experiências e aprendizagem. Desta forma, acreditar que o instinto vai resolver as questões do aleitamento humano de forma espontânea é ignorar suas condições de existência.

Combinando fatores
Se consideramos:
1) o lugar do sujeito no aleitamento, ou seja, qual o desejo consciente e inconsciente da mulher de exercer esta atividade junto ao seu bebê,
2) quais as condições psíquicas para que este desejo seja sustentado e
3) quais as condições físicas de ambos (mãe e bebê) de vir a fazê-lo
teremos melhores resultados na qualidade da relação mãe/bebê, seja qual for a forma de alimentação escolhida.

Como exemplo temos a mãe que nos diz, numa cena corriqueira da clínica:
_Estou amamentando, mas meu bebê não ganha peso.
O psicólogo que puder escutar:
1) qual a disponibilidade subjetiva desta mãe para esta tarefa?
e, ao mesmo atentar para
2) qual é a qualidade técnica da mesma?
Talvez descubra que: esta mãe não conseguiu abrir mão de seus outros investimentos narcísicos para se voltar para seu bebê; ou está perseguida por uma avó voraz e demandante; ou sente inveja do bebê; etc, etc...
Mas talvez descubra, por outro lado, que esta mãe quer muito aleitar, mas que ela tem por hábito oferecer apenas dez minutos de cada seio por vez. Desta forma o bebê poderá estar ingerindo apenas água (leite anterior) ao invés de gordura (leite posterior).
Ainda pode ser que descubra que ambas as interpretações estão certas e se reforçam: o erro no manejo do aleitamento impedindo aquilo que a mãe não pode fazer (em função de uma fantasia inconsciente que lhe interdita fazê-lo) ou não deseja fazer (mas teme assumir para si).
Embora o manejo do aleitamento seja uma especialidade para a qual o psicólogo não está habilitado, o simples fato dele considerá-la importante cria o espaço de escuta e a eventual possibilidade do encaminhamento do paciente para alguém que possa suprir estas informações, que o grupo social não vem transmitindo mais. t´Estas informações, por seu lado, sempre foram acompanhadas dos olhares de aprovação e incentivo de outras mulheres e das adaptações a cada caso singular. Muito diferente da informação por internet e livros, ou ainda alguns intervenções profissionais tão dessubjetivantes que acabam por inibir a mulher neste delicado começo.
Pelo acima exposto, propomos um diálogo entre especialidades que amplie nossa escuta para contemplar o sujeito em suas vertentes social, corporal e subjetiva, ou seja, para muito além da glândula mamária, mas sem jamais ignorá-la.

Vera Iaconelli - Instituto Gerar 

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