Emoções afetam a nutrição da criança

Estudos apontam que a saúde mental dos pais e a rede de apoio familiar influenciam a alimentação da criança

Sabemos que um dos fatores que estimulou o processo civilizatório da humanidade foi a busca pelo alimento. As diferentes culturas foram se estruturando ao mesmo tempo em que a coleta e a caça foram sendo substituídas pelo desenvolvimento da agricultura e da pecuária. No entanto, a estruturação dos agrupamentos humanos ao longo do tempo não privilegiou a distribuição igualitária dos alimentos.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), mais de 200 milhões de crianças menores de cinco anos não atingem seu potencial de desenvolvimento humano. Dentre os fatores responsáveis por isso, estão a desnutrição crônica e uma estimulação cognitiva inadequada, cujas causas estão relacionadas não só à carência alimentar, mas também aos fatores psicossociais, como os transtornos emocionais maternos e a exposição à violência.
A associação entre desnutrição infantil e pobreza é reconhecida há muito tempo. Porém, a relação da desnutrição infantil com os transtornos mentais é mais recente. Em 1996, eu e meu grupo publicamos um estudo sugerindo a associação da desnutrição infantil com a presença de problemas emocionais (sintomas depressivos, ansiosos e de somatização) em mães. Naquela ocasião, a pesquisa foi realizada com famílias de baixa renda, moradoras da cidade de Embu, na Grande São Paulo, como parte das atividades da Universidade Federal de São Paulo (então Escola Paulista de Medicina). 
A partir dos anos 2000, novos estudos sobre o tema foram publicados por outros autores. Até que em 2011, a doutora Pamela Surkan e seus colaboradores, da Universidade Johns Hopkins, consolidaram este conhecimento reunindo os dados de todos os estudos sobre o assunto, por meio de um tipo de análise estatística, a metanálise.
Hoje, já se reconhece que a desnutrição infantil tem origem não só na redução da disponibilidade de alimentos, mas também na presença de distúrbios emocionais nos adultos responsáveis pela criança. É importante dizer que, em parte dos casos, esses sintomas são discretos, e muitas vezes não chegam a configurar um diagnóstico de transtorno ou doença mental.
Influência do suporte social na nutrição infantil
Cláudio Torres de Miranda (Foto: arquivo pessoal)
Em 2006, realizei, com um grupo de pesquisa na Universidade Federal de Alagoas, onde trabalho atualmente, uma série de estudos procurando outras variáveis psicossociais relacionadas à mãe, ao pai e à família de uma forma geral, que pudessem ocasionar a desnutrição infantil. A maioria desses estudos aconteceu no Centro de Recuperação em Nutrição (CREN) de Maceió.
Com relação à mãe, verificamos que, além da saúde mental, a baixa escolaridade e a falta de suporte social (isto é, a percepção materna de não ter com quem contar em caso de necessidade) também tinham influência sobre a nutrição da criança. Assim como ocorreu no estudo realizado com as mães, o comprometimento da saúde mental do pai também mostrou associação com a desnutrição de seu filho.
O estudo revelou ainda a associação da desnutrição da criança com o número elevado de pessoas morando na mesma residência ou quando o atual companheiro da mãe não era o pai biológico.
Observamos também que o baixo envolvimento familiar com as crianças de um a três anos, especialmente por parte da mãe, estava associado diretamente com a desnutrição. Já em crianças entre três e seis anos a associação era com a baixa estimulação da aprendizagem, o que compromete o desempenho e a socialização no ambiente escolar. Além disso, registramos que mães de desnutridos reclamavam mais frequentemente de problemas de conduta de seus filhos do que mães de crianças sem desnutrição.
A partir dos dados destas e de outras pesquisas, realizamos, com o apoio do CNPq, uma intervenção junto às mães de desnutridos no estado de Alagoas. Convidamos as mães para participar de um programa de orientação, preconizado pela Organização Mundial da Saúde. Divididas em grupos pequenos, conversavam com professoras sobre como estimular a relação com os filhos pequenos. A intervenção foi marcada pela dificuldade de conseguir o comparecimento das mães às reuniões. Depois de dois anos, conseguimos que uma amostra de 25 mães selecionadas comparecesse a quatro reuniões.
Em cada uma das quatro reuniões eram explorados dois dos oito princípios que compunham o programa. Em cada um deles, construíamos um contexto, pedindo a participação da mãe. Por exemplo, no princípio “elogiar a criança”, trazíamos comidas incomuns na dieta das mães e elogiávamos quando elas experimentavam um novo alimento ou quando elas ajudavam na preparação. No final, perguntávamos como se sentiam ao ser elogiadas e discutíamos como o elogio poderia aumentar a autoconfiança.
Observamos as mudanças de conhecimento, atitudes e práticas das mães na interação com seus filhos, antes e depois da intervenção. As mães com problemas emocionais pouco se beneficiaram dessa intervenção. Somente as mães que tinham como companheiros os pais biológicos dos filhos desnutridos tiveram um aprendizado significativo na avaliação imediata após as reuniões. Contudo, esse conhecimento adquirido era esquecido após alguns meses. Além disso, as mães não mudavam definitivamente nem as atitudes nem as práticas na interação com seus filhos.
É claro que o resultado foi preliminar e o estudo foi de pequena escala. Mas, serviu para mostrar que, em termos populacionais, resultados positivos dependerão da oferta de programas de resiliência familiar. Se a mãe não tem um certo grau de suporte social que compense a ausência do companheiro, fica mais difícil para ela conseguir uma boa interação com seu filho e, assim, garantir uma alimentação adequada. Os aspectos que caracterizam essa resiliência familiar vêm gerando novos estudos e há vários desafios neste campo do conhecimento.
Novos horizontes
Pesquisas no Brasil, Ásia e África estão sendo realizadas com o objetivo de criar instrumentos para manejar casos remanescentes de desnutrição infantil e, principalmente, para compreender melhor as dificuldades que muitas famílias pobres, mesmo sem crianças desnutridas, têm para preparar seus filhos pequenos para o processo de escolarização e de socialização, requisitos essenciais para a conquista de melhores condições de vida. 
O relato desta investigação científica, iniciada há mais de duas décadas, ilustra o percurso que muitos pesquisadores fazem ao longo de sua vida profissional. Em 2014, o Prêmio Jovem Cientista convida aqueles que estão iniciando uma trajetória de pesquisa a apresentar soluções para este e outros desafios da “Segurança Alimentar e Nutricional”.  O tema proposto, de extraordinária relevância, dará mais visibilidade às possíveis soluções investigadas.
*Cláudio Torres de Miranda é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas
O Prêmio Jovem Cientista é uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com a Fundação Roberto Marinho, e conta com o patrocínio da Gerdau e da BG Brasil. Criado em 1981, a iniciativa é um dos mais importantes reconhecimentos aos cientistas brasileiros, tem o objetivo de incentivar a pesquisa no país e reconhecer jovens talentos nas ciências. 
Fonte: Revista Época

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