27 de janeiro de 2014

Comercial da Coca Cola sobre a vida de um casal com filho


“Os acontecimentos no momento da concepção, na vida intrauterina, na chegada ao mundo, na amamentação, no modo de ser acalentado no colo, do primeiro ano de vida e da infância, irão determinar a formação do caráter do indivíduo e sua dinâmica com o mundo. - Os delicados indícios da vida são de grande importância. São os fundamentos do bem estar da alma e do corpo. Gostaria de pedir-lhes o apoio a esses esforços. Precisamos de paz sobre a Terra – paz que começa no ventre da mãe”. 
Eva Reich

26 de janeiro de 2014

Texto sobre bebês


"Não. Os bebés não são como nos é dito. Os bebés não gostam de dormir num berço. Rodeados por grades. Presos numa gaiola. 

Não. Os bebés querem dormir ao lado do corpo da sua mãe, quentes, seguros, protegidos, amados, tocados.

Não. Os recém-nascidos não querem nem sequer estar numa posição horizontal. Eles querem dormir no seu peito, na vertical, balançando-se ao som do seu coração. Horizontalizados retardam a digestão, têm vómitos, bolsam, têm cólicas, assustam-se, sentem-se vulneráveis. 

Não. Os bebés não se acostumam aos braços: nascem já acostumados. Desde o início sabem bem o que é bom. 

Não. Os bebés não dormem toda a noite. Eles acordam a cada minuto. Para comer e para não comer. Para verificar se está ao seu lado e se se importa. Para certificar-se da sua presença, que é a sua segurança. Para tocá-la e cheirá-la. 

Não. Os bebés não querem ficar sozinhos. Eles não querem perdê-la de vista por um minuto, querem estar consigo no centro da vida. 

Não. Os bebés não querem brincar sozinhos num parque. Eles querem brincar consigo, sorrir, serem atendidos, treparem-te para cima, rastejarem pela sala. 

Não. Os bebés não querem beber leite de outra espécie. Eles querem o seu leite, que sabe a mamã. 

Não. Os bebés não querem chuchar todo o dia um pedaço de plástico. Eles querem chupar os seus seios, as suas pequenas mãos, os seus dedos... pele humana.

Não, os bebés não querem que os vistam, nem que lhes coloquem tecidos que picam, nem brincos nas orelhas, roupas apertadas, fitas, rendas e outras coisas irritantes. Eles querem estar nus, correndo descalços, apreciando o toque da natureza na sua pele, estar pele com pele consigo. 

Não. Os bebés não querem ficar parados. Eles querem que se mova, que mexam neles, que os embalem, que ande, passeie e os leve consigo. Assim que eles podem, querem gatinhar, correr, saltar, explorar, chegar a toda a parte... 

Sim, os bebés são naturalmente curiosos. Eles querem e precisam tocar em tudo. Incluindo aquelas coisas que a vêem usar: comandos, relógios, telefones, computadores... A sua riqueza sensorial desenvolve-se a partir daí.

Não. Os bebés aprendem o que vivem. Se estão sempre a ouvir "não", estarão sempre prontos para dizerem não. Se tem medo de tudo, em breve terão medo de tudo.

Não. Os bebés não são macro-exigentes. Nós é que somos micro-pacientes, micro-tolerantes, micro-disponíveis e micro-respondedores. 

Não. Os bebés não querem que os deixem. Eles querem ir consigo a todos os lugares, você é o seu exemplo, a sua segurança, a sua referência, o seu único universo. 

Goste ou não goste, assim são os bebés humanos, primatas, mamíferos. Se quiser confirmar, basta ter um. Nenhuma outra espécie desconhece e prejudica tanto as suas próprias crias. Se queremos um mundo um pouco mais humano, faríamos bem em entender isto. 

Não é como nos disseram "Eles são infinitamente melhores e mais inteligentes." Quem quer que visse estes filhotes diria: que espécie tão avançada! E como é que eles se tornaram no que são?"


18 de janeiro de 2014

Dê tempo ao tempo do seu bebê

Especialista em educação infantil condena a superestimulação e defende a importância de os pais ficarem mais despreocupados para melhorar a qualidade da relação familiar

brincadeira; escola; amigos; criança (Foto: Shutterstock)
Antes mesmo de o bebê nascer, os pais começam a planejar o seu futuro. Nessa ânsia de tentar controlar todos os passos da criança, para que ela se saia bem na vida, existe uma coisa muito importante que pode ficar comprometida: o tempo. Por isso, cada vez mais pessoas estão se comprometendo com a ideia do slow parenting, que teve início nos Estados Unidos e nada mais é do que a desaceleração da rotina dos pais para que deixem seus filhos mais tranquilos para curtir da vida. Com atitudes simples, e uma dose de “despreocupação”, as famílias conseguem melhorar a qualidade de vida.

O pedagogo Paulo Fochi, coordenador do curso de Educação Infantil da Unisinos, no Rio Grande do Sul, é um dos porta-vozes do movimento aqui no Brasil. Em suas palestras, ele defende que o melhor jeito de praticar o slow parenting é começando cedo, a partir do momento em que o bebê chega ao mundo. CRESCER conversou com ele para entender de que maneira os pais podem melhorar a vida dos filhos. Veja abaixo:

CRESCER: De que forma estamos acelerando os bebês?
Paulo Fochi: 
No Brasil, assim como em outros países, as crianças estão saindo da vida privada (família) e indo para a vida pública (escola) cada vez mais cedo, com 4 ou 5 meses de vida. Refletir sobre esses processos de educação compartilhada torna-se fundamental nos dias de hoje. Logo, quando falo e critico a aceleração que adultos e a sociedade estão colocando aos bebês, me refiro também, e especialmente, a esses recém-chegados ao mundo. Mesmo os bebês bem pequenos estão vivendo a partir de uma agenda de tarefas cada vez maior, seja na sua experiência na escola, seja em casa com seus pais. Bom seria se, com a vinda deles, aprendêssemos a estabelecer um “contrato” diferente com o tempo e, em vez de inventarmos atividades para os bebês, criando agendas e tentando descobrir quais são os novos produtos, aulas e afazeres que o mercado criou pra eles, tentássemos organizar e garantir que o tempo de estar juntos pudesse ser maior, mais intenso e mais despreocupado. Não há nenhuma atividade melhor que a incrível possibilidade de estar com o outro e, para tal, não é necessário criar brincadeiras, inventar jogos ou atividades especializadas. Agora é a hora de aventurar-se na tarefa que implica aprender a estar com os outros. E isso requer tempo.

C.: Em entrevistas anteriores, você se refere a uma superestimulação dos bebês. O que seria isso e quais as consequências para as crianças?
P.F.: 
Os pais costumam ficar desesperados para acelerar e apressar os pequenos a chegarem antes em algum lugar misterioso. São práticas que privam o bebê de efetivamente participar de um percurso que, a princípio, ele é que deveria estar inteiramente ativo. Na verdade, as premissas de estimulação partem de um pressuposto que entende os bebês como passivos e incapazes de eleger. Eu não concordo com isso e, por essa razão, sou contra qualquer tipo de estimulação externa e que tira a centralidade da criança.

C.: Você pode dar um exemplo?
P.F.:
 Colocar os bebês de barriga para baixo para que eles possam caminhar mais cedo é um estímulo inadequado. Fazer isso é como pedir que, em nosso trabalho, fiquemos numa posição corporal totalmente inadequada e desconfortável durante o expediente. Em vez disso, o melhor é que os bebês não fiquem presos em cadeiras de balanço e possam estar no chão, explorando e descobrindo o seu entorno. Essa é a melhor forma de garantir boas oportunidades às crianças. Quero ainda destacar que não só falo da super, da hiper, mas da estimulação externa como um todo. Passou-se a encarar a vida, em especial a ideia de educar uma criança pequena, como um empreendimento do futuro. Por isso, parte-se da ideia de um bebê passivo e em falta e que precisa ser estimulado para ser ativado e preenchido com aquilo que parece ser a garantia da sua felicidade.

C.: Em que sentido a estimulação pode ser ruim?
P.F.: 
Ando muitíssimo preocupado com pais e escolas que estão associando agendas lotadas como sinônimo de qualidade de vida dos filhos. Por favor, perguntem a eles: “Vocês estão felizes, crianças?”. Creio que a resposta seja: “Nós estamos cansados”. Colocar as crianças nesse ritmo da produção, do capital, é como aniquilar sonhos, aniquilar a nossa potente capacidade de criar e recriar uma nova visão de mundo. Se não tivermos tempo – e não criarmos o tempo – para experimentar, testar, abandonar e retomar um projeto, seja ele da natureza que for, perderemos esse que é fator primordial da nossa condição humana: o inédito, o novo, a possibilidade de dar novas oportunidades ao mundo.
C.: Então, o que os bebês devem ter ou receber no berçário?
P.F.:
 Na escola, inventam-se aulas disso e daquilo e, muitas vezes, cria-se um cenário repleto de estímulos sonoros, visuais e táteis. Só que os bebês não precisam ser ativados, eles já são muito ativos e têm o impulso de conhecer o mundo. Hoje, no Brasil, com as Novas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil, os educadores estão apostando cada vez mais na educação autônoma e de movimentos livres. Entende-se que um currículo para uma escola que atenda crianças de 0 a 6 anos compreenda as práticas do cotidiano como uma das formas de construir conhecimento. Comer, por exemplo, é uma grande aprendizagem. Como estamos pensando sobre isso em nossas escolas? Não me refiro apenas a uma alimentação saudável, mas também à prática social de estar à mesa com seus pares (os outros bebês), de conseguir operacionalizar o movimento de levar, apoiado por um instrumento (colher), o alimento até a boca ou, ainda, servir-se com os alimentos que deseja. Esses são conteúdos que as escolas de hoje precisam entender como práticas curriculares.

C.: Precisamos dar um tempo para o bebê ser bebê. Qual é, na prática, o significado dessa frase e por que isso é importante?
P.F.:
 Esse é um tempo que não tem chance de ser recuperado. Só somos bebês ao chegar ao mundo. Na prática, dar tempo para o bebê ser bebê é eliminar as agendas de atividades, é garantir um espaço adequado para explorar o mundo, é parar com essa ideia de antecipar algo que pode ser descoberto depois, quando tiver muito mais sentido. Estou me referindo a um entorno diferenciado, em que as expectativas demasiadas dos pais em relação aos filhos precisam ser abandonadas. A psicanálise já nos ensinou o quanto perverso e terrível é para os bebês nascerem com uma história já narrada, anunciada e determinada pelos adultos.

C.: Como os pais podem “pisar no freio”?
P.F.: 
Minha preocupação tem sido alertar pais e professores que aceleram seus bebês. Entendo que uma coisa possa estar relacionada a outra, mas os bebês ficam sem escolha, não lhes dão oportunidades de eleger o que fazer. Os adultos precisam aprender a escutar aqueles que não são portadores da palavra, portanto, fazer uma escuta muito mais profunda e intensa, que se dá através de um diálogo de olhares, do contato entre os corpos, de sorrisos... Penso que, quando aprendemos a fazer essa escuta, descobrimos a imensa capacidade que as crianças bem pequenas têm de admirar o mundo, de contemplar e entrar em acordo com o tempo, que não é tão horizontal – do antes, agora e depois. Ele é um tempo mais vertical, medido pela intensidade dos acontecimentos. Eu, particularmente, aprendi no convívio com os bebês a pensar sobre o tempo. Descobri que dispensava tempo, e ainda dispenso, com coisas que não valem tanto assim.

11 de janeiro de 2014

Por dentro da cabeça dos bebês

Novas pesquisas sugerem que as crianças vêm ao mundo com uma pequena enciclopédia de conhecimentos - sobre física, biologia e até ética. Veja como ela funciona

Quando tinha apenas seis meses de vida, o coreano Kim Ung-Yong começou a falar. Aos três, já era fluente também em japonês, alemão e inglês. Aos quatro, entrou na universidade para estudar física e logo depois foi contratado pela Nasa. A australiana Aelita Andre começou a pintar aos nove meses e aos quatro anos já vendia quadros pelo equivalente a R$ 60 mil. Basta uma rápida pesquisa no Google para encontrar bebês que já são capazes de ler alguma coisa aos 12, dez ou até sete meses. Todos esses bebês prodígios são exceções, claro. Mas quando você desconfia que seu filho - ou aquele sobrinho querido - seja esperto demais para um simples neném, pode não ser apenas corujice. Existe muito mais naquela pequena cabeça do que você de fato imagina. 

Durante séculos, uma das visões mais populares sobre como funcionaria a mente dos bebês afirmava que ela podia ser descrita como uma "tábula rasa" - uma folha de papel em branco ou um computador sem nenhum programa instalado de fábrica, digamos. Segundo essa crença, a criança recém-nascida teria de aprender literalmente tudo sobre o mundo por meio de estímulos externos, que ela lentamente transformaria em regras sobre como as pessoas e as coisas ao seu redor funcionam. Mas não é bem assim. As últimas décadas de pesquisa indicam que, muito provavelmente, essa visão é equivocada ou, pelo menos, precisa ser relativizada. Continuando com a analogia entre o cérebro e o computador, muito provavelmente nós já chegamos ao mundo com um monte de aplicativos prontos ou semiprontos para "rodar". 

"Mais do que nascer sabendo, o bebê já nasce aprendendo", diz Maria Stella Coutinho Gil, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisadora sobre comportamento, cognição e desenvolvimento infantil. Os cientistas estão longe de um consenso sobre o que exatamente os bebês já sabem quando vêm ao mundo, mas já há uma massa considerável de dados que desafiam o modelo mais simples da "tábula rasa". Os domínios de conhecimento dos pequenos humanos - ou ao menos a aptidão natural deles para absorver rapidamente certos tipos de conhecimento - incluem áreas tão diferentes quanto a física, a linguística, a biologia e até uma forma rudimentar de ética.

Evolução, técnica e creche 
Para entender por que só agora os pesquisadores começaram a se dar conta das capacidades que trazemos de berço, é preciso entender três pequenas revoluções: uma conceitual, outra tecnológica e, finalmente, também uma social. 

A primeira tem a ver com a feliz união entre duas áreas de pesquisa: a teoria da evolução e a psicologia. Os especialistas modernos estão levando em consideração com mais frequência a ideia de que as capacidades mentais básicas dos seres humanos não são só uma criação das diferentes culturas do mundo, mas se baseiam numa arquitetura cerebral que foi moldada pela evolução - e que, inclusive, existe em outros animais com os quais compartilhamos ancestrais comuns (leia na reportagem sobre a evolução dos bebês, na página 34). 

Se os grandes macacos, como chimpanzés e gorilas, também mostram um senso rudimentar de justiça e de empatia nas suas relações sociais, é menos provável que a cultura humana tenha inventado, sozinha, o famoso "não façais aos outros o que não quereis que vos façam". 

Além do mais, há também a questão do risco e do custo de ter de aprender um comportamento, em vez de já estar evolutivamente preparado para desenvolvê-lo diante dos estímulos apropriados. A ideia é que os conhecimentos realmente essenciais para a sobrevivência deveriam ser "pré-programados" o mais cedo possível, até porque seria muito difícil aprendê-los totalmente do zero apenas com base em estímulos externos - um argumento que parece fazer bastante sentido no caso do aprendizado da linguagem, como veremos a seguir. 

No caso da revolução tecnológica, o grande problema que existia antigamente é que... ao contrário dos prodígios citados no início dessa reportagem, bebês em geral ou não falam ou só estão começando a falar. Também não sabem escrever, infelizmente. E coordenação motora não costuma ser o forte deles. Por outro lado, para o azar dos interessados em entender a mente dos infantes, a pesquisa em psicologia sempre dependeu basicamente da aplicação de questionários orais ou por escrito ("o que o sr. sente vendo essa imagem de mulher bonita de biquíni?") ou de experimentos nos quais a reação das pessoas a um determinado contexto é medida (do tipo "mulher de biquíni, que na verdade foi contratada pela equipe de pesquisa, passa por homem casado e dá uma piscadinha"). 

Por sorte, foram criadas e aperfeiçoadas tecnologias como a do eyetracking, ou rastreamento ocular, no qual é possível saber para que lado de uma tela ou de uma imagem a pessoa está olhando, e por quanto tempo ela mantém o olhar fixo naquele lugar. Bebês, nesse ponto, são iguais aos adultos: ficam olhando mais tempo para coisas interessantes e surpreendentes. Só resvalam o olhar em coisas desinteressantes e corriqueiras, e isso ajuda a medir o que chama a atenção de uma criança pequena. Esses estudos comportamentais são tão fáceis de serem aplicados que são usados até com outros primatas menos inteligentes do que nós. 

E não para por aí. Recentemente, também surgiram maneiras de medir até a intensidade com que um bebê suga uma mamadeira ou uma chupeta. E essa força, aparentemente desinteressante para os adultos, pode na verdade dizer muito sobre os pequenos: o bebê tende a sugar mais diante de coisas surpreendentes, interessantes ou simplesmente legais. Por fim, aumentaram também as tecnologias capazes de medir diretamente a atividade cerebral de qualquer pessoa, inclusive dos pequerruchos - embora, decididamente, nem todos eles se sintam confortáveis com um monte de eletrodos grudados na cabecinha. 

Ah, sim, e as mudanças sociais, que nas últimas décadas não foram poucas. Uma das mais importantes delas para a ciência nesse campo foi a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho a partir dos anos 80. Os bebês passaram a se separar das mães cada vez mais cedo - mesmo que só por algumas horas diárias - e interagir mais com seus pares. Assim, os cientistas puderam estudar melhor o que acontece durante essa interação. E fizeram grandes descobertas. Como a de que bebês de oito ou nove meses já têm empatia. Observaram que, quando um bebê chora, outro é capaz de se dirigir até ele e fazer festinha para que ele fique contente, ou acariciar sua cabeça. Ele sente na pele e sabe muito bem como é duro ser um bebê.



Bichinhos morais?

Não é só fofura. O desempenho surpreendentemente complexo dos bebês nos quesitos empatia e interação social também parece ter relação com o que poderia ser descrito como uma forma rudimentar de moralidade. De acordo com a psicóloga Débora de Hollanda, professora e pesquisadora da UFSCar, há evidências recentes de que bebês conseguem discriminar quem age de forma pró-social (ajudando outros) e os que agem ao contrário (prejudicando outros), demonstrando preferência pelos primeiros. 

Como diabos os cientistas sabem disso? Usando a boa e velha técnica do desenho animado. Experimentos clássicos nesse sentido foram realizados pelo casal de psicólogos Paul Bloom e Karen Wynn, da Universidade Yale (EUA), junto com sua colega Valerie Kuhlmeier. 

Eles expuseram grupos de bebês com nove meses e um ano de idade a uma série de desenhos animados com personagens. Na verdade, simples formas geométricas, para separar o efeito das ações dos personagens de sua aparência física - caso um deles fosse mais bonitinho que o outro do ponto de vista das crianças, por exemplo. Eram desenhos com histórias como a de uma bola que está tentando, com muito esforço, subir um morro. Seu "amigo" quadrado vai lá e dá uma forcinha, ajudando a coitadinha a chegar ao topo. Só que aí aparece o triângulo "malvado" e dá um peteleco na bola, fazendo-a descer de novo tudo que tinha escalado. O final do desenho (e a parte crucial do experimento) envolve uma interação entre a bola e os outros personagens, que pode variar - às vezes ela interage com o quadrado, às vezes com o triângulo. 

"O que descobrimos é que, estatisticamente, os bebês olham mais tempo para a tela quando assistem um filme no qual a bola escolhe se aproximar do objeto que a atrapalhou", conta Bloom. O que mostra que elas parecem julgar a escolha um tanto esquisita. Em outro experimento da mesma universidade, depois de assistir ao vídeo, as crianças podiam escolher com que bonecos dos personagens gostariam de brincar. Resultado: tendem a abraçar o bonzinho e rejeitar o malvado. 

Em artigo para o New York Times, Bloom chega até a descrever a cena engraçadíssima de um menino de um ano dando uns cascudos no malfeitor, "fazendo justiça com as próprias mãos", como ele diz. (O que não é de todo inesperado: um dos repórteres que escreveu essa reportagem certa vez levou um safanão de uma garotinha da mesma idade, que tentava "proteger" seu priminho chorão, um mês mais novo, do "sofrimento" de ter sua fralda trocada.) 

Outro experimento recente, da Universidade de Washington, em Seattle (EUA), e publicado em outubro do ano passado na revista científica PLoS One, trouxe pistas de que os rudimentos éticos das crianças podem ir além de apenas rejeitar figuras mais agressivas. Nesse estudo, as crianças pareceram levar em conta um dos mecanismos básicos do que chamamos de justiça: a igualdade. Funcionava assim: meninos e meninas com idade média de 15 meses, num total de 50 crianças, assistiam a mais um daqueles famosos filminhos, dessa vez mostrando uma dupla de adultos que recebem pratos com biscoitos. Em uma cena, ambos os adultos ganhavam a mesma quantidade de guloseimas, enquanto em outra, os biscoitos eram divididos de maneira desigual. Aqui, o teste era o de atenção - e, conforme o previsto, as crianças olhavam mais fixamente para a cena da desigualdade (chocadas com a injustiça, talvez?). 

Na sequência, os cientistas submeteram as mesmas crianças a um tipo diferente de teste. Primeiro, um experimentador que as crianças já conheciam entrava numa sala com dois brinquedos nas mãos e sugeria que as crianças escolhessem um deles. Feita a escolha pelo brinquedo preferido, as crianças recebiam os dois, e o experimentador conhecido saía. Fase dois: outro cientista, desta vez desconhecido, aparecia e perguntava se podia pegar um dos presentes. 

Era a hora da verdade, e a meninada não se saiu mal. Um terço delas emprestava ao cientista o brinquedo preferido; outro terço fazia o mesmo com o outro brinquedo; e só um terço se recusava a fazer o empréstimo. Retomando o que aconteceu no experimento anterior, as crianças que topavam ceder seus brinquedos também eram as com mais tendência a se surpreender diante da divisão desigual dos biscoitos. 

Todos esses achados são fascinantes, e parecem fazer sentido em conjunto, mas Débora de Hollanda lembra que se trata de uma área de pesquisa ainda em sua infância (sem trocadilhos). "Atribuir um senso de moralidade a crianças tão pequenas é considerado ousado demais para alguns cientistas. Por isso ainda não há consenso sobre como interpretar esses novos dados de pesquisa", afirma a psicóloga da UFSCar.

Little Newton 
Outro elemento crucial da nossa lista também contraria o que se achava tradicionalmente sobre as capacidades dos bebês. Um dos patriarcas do estudo da cognição infantil, o suíço Jean Piaget (1896-1980), costumava explicar a surpresa e o deleite das crianças pequenas com aquelas brincadeiras de "achou!" (quando o adulto se esconde e aparece de repente) por meio da ideia de "permanência de objeto". 

O termo refere-se à capacidade de saber que uma coisa não deixa de existir quando ela sai do nosso campo visual. Piaget acreditava que as crianças pequenas não tinham permanência de objeto - para elas, ver um adulto se esconder atrás de uma cortina e reaparecer seria o mesmo que ver o sujeito deixar de existir e voltar à existência logo depois. E o mesmo valeria para o comportamento físico normal dos objetos em geral - a criança não teria nenhuma expectativa prévia a respeito deles. 

Mas experimentos testaram essa hipótese de forma mais rigorosa. Uma das líderes nesse campo é Elizabeth Spelke, da Universidade Harvard. O que ela fez foi mostrar a bebês dois tipos de cenas - um em que objetos do cotidiano, como caixinhas e carrinhos, comportam-se de acordo com as leis da física, e outro em que fazem maluquices como ficarem suspensos no ar quando o apoio embaixo deles é retirado, em vez de despencarem. Você provavelmente já intuiu o resultado: mesmo crianças de seis meses de idade olhavam surpresas para objetos que desafiavam as leis de Newton. 

Da mesma maneira, a matemática mais básica - saber que, quando você tem dois objetos e tira um deles de cena, o certo é sobrar um, não zero ou dois - também parece ser dominada pelos infantes de seis meses, desta vez em experimentos realizados por Karen Wynn em Yale. Quando seu filhote estiver quebrando a cabeça com equações de segundo grau na sétima série, portanto, você já tem a frase motivacional perfeita (embora inexata): "Você vai aprender, filho. Tá no sangue".

O instinto da linguagem

Esse é o título de um livro célebre do psicólogo canadense Steven Pinker, da Universidade Harvard (EUA), e resume o que uma série de pesquisas tem mostrado: embora ninguém aprenda a ler e a escrever sem ser ensinado (formal ou informalmente), todos aprendemos nossas línguas maternas com imensa facilidade. E isso se deve a um instinto, ou talvez a um "módulo" mental da linguagem, que já vem pronto de berço. 

Um dos argumentos mais gerais em favor dessa ideia é o da chamada pobreza de estímulo, e não é difícil de entender. A questão é que ninguém ensina gramática ou sintaxe às crianças, mas mesmo assim elas aprendem maravilhosamente bem a(s) língua(s) falada(s) por seus pais e coleguinhas. É como se a cabecinha delas viesse preparada com uma capacidade fantástica de abstrair regras linguísticas a partir de frases faladas. 

Dá para exemplificar bem esse fato com dois bebês muito conhecidos destes repórteres, os priminhos Miguel e Heloísa (ou Lolô, para os íntimos). Quando tinham cerca de dois anos de idade, desandaram a falar (a Lolô antes, o que de fato costuma se dar no caso das meninas). Num de seus rompantes típicos de precocidade linguística e prazer em mandar nos outros, ela resolveu dar um sermão no Miguel, imitando o que os adultos estavam dizendo momentos antes: "Miguel, não pode, eu sou criança, você é crianço". 

Muito provavelmente o leitor já escutou esse tipo de coisa. O interessante aqui não é o fato de a Lolô ter cometido um erro de português, mas sim o fato de, sozinha e sem instrução formal, só de ouvir outras pessoas falarem, ela ter conseguido formular uma regra abstrata do seu idioma materno, que poderíamos resumir como: "Para fazer o feminino, acrescente um a no final da palavra; para o masculino, coloque um o. 

Tudo indica que, embora o conteúdo linguístico varie de cultura para cultura - nossas crianças aprendem a separar os substantivos em masculino e feminino, assim como os chineses diferenciam palavras por "tons" semelhantes aos da música, e por aí vai -, as categorias linguísticas básicas, que fazem uma língua funcionar, são mais ou menos as mesmas, de maneira que as crianças "sugam" naturalmente o idioma para dentro de seus cérebros.



Como treinar seu gênio 
OK, é ótimo saber que o seu filhote provavelmente tem conhecimentos inatos de física, biologia e até de filosofia moral. Mas o que fazer para que o pequerrucho desenvolva ao máximo essas potencialidades o mais cedo possível? Uma das principais dicas, garantem especialistas, começa no assunto da página anterior: a fala. Na verdade, até um pouco antes. Sabe aquele famoso "mamanhês" - a linguagem específica entre mãe e bebê caracterizada por grunhidos e sons desconexos em forma de conversa? Apesar de esquisito para quem vê de fora, ele só ajuda. "Quando o bebê começa a grunhir, querendo `conversar¿, a mãe espera que ele termine e responde ao grunhido da mesma forma, estabelecendo a comunicação", diz a psicóloga Maria Stella Coutinho Gil. O resultado disso? "Com o passar do tempo, a mãe se torna mais exigente em relação à pronúncia das palavras quando o bebê começa a falar, contribuindo para o desenvolvimento da linguagem", diz. 

Entre os dois e os três anos de idade, dá até para pensar em apresentar uma segunda língua à criança. Embora, nessa faixa etária, a criança conheça menos palavras do que um adulto, em um curto período de tempo ela compensa essa falta de vocabulário com uma fluência melhor. 

E para estimular a linguagem, o melhor é desligar a TV sempre que puder e conversar com seu filho. Apesar de toda a propaganda, nenhuma daquelas séries de DVDs que prometem estimular a inteligência de bebês se provou eficaz. Sim, parece uma orientação de tia velha, mas esse tem sido o consenso entre os especialistas, que motivou até um relatório da Associação Americana de Pediatria no ano passado. Ele reforçou a recomendação do boicote à televisão - idealmente, nenhuma hora diante da tela por dia - para crianças com menos de dois anos. 

A justificativa é simples: uma série de estudos mostra que ficar diante da TV, mesmo se o programa for supostamente educativo, atrapalha um pouco o desenvolvimento da linguagem e da coordenação motora das crianças. A culpa não é exatamente da tela, tampouco da programação. Mas do que acontece quando ela é ligada: os pais conversam menos com os bebês. E é essa conversa o fator crucial para a criança desatar a falar. "O maior problema da TV é que ela toma o tempo em que a criança deveria estar brincando ou conversando com um adulto", afirma a pedagoga Roberta Golinkoff, da Universidade de Delaware, nos EUA. Com a diversão passiva, o bebê tem menos incentivo para brincar com objetos, com outras pessoas e com o próprio corpo. 

Aliás, para estimular o desenvolvimento do ponto de vista motor, não há muito segredo: deixe o bebê interagir o máximo possível com o mundo, movimentar-se, sentir texturas e formas, ver objetos - reais, não apenas eletrônicos - em movimento. E saiba também a hora de não estimular o pequeno. Crianças ou bebês já sabem demonstrar os limites para os estímulos. Não insista em brincadeiras das quais demonstram não estar gostando. Seu filho pode até ser um verdadeiro gênio, mas não precisa começar a falar aos seis meses para provar que é inteligente. Cada coisa a seu tempo.

9 de janeiro de 2014

PAIS DEVEM RESPEITAR FASE ORAL DOS BEBÊS

Do nascimento até os 18 meses de vida, o bebê está na chamada "fase oral", em que está descobrindo o mundo através da boca. O período é extremamente importante para o desenvolvimento da criança. Segundo os pediatras, os pais não devem impedir os bebês, apenas monitorar para evitar riscos, como engasgos ou contato com insetos.
Para os bebês, a boca significa muito mais do que a simples entrada de alimentos. E toda descoberta começa pela amamentação, primeiro contato afetivo com a mãe após o nascimento, fonte de acesso à alimentação e sustento do organismo.
Os pais não precisam se preocupar se até os dois anos de vida a criança levar dedos ou mãos à boca. É preciso que eles fiquem atentos se o objeto levado à boca não machuque, seja macio e limpo, não possa ser engolido e não traga riscos ao bebê.
É muito importante que a criança tenha essa fase de usar a boca para "conhecer" as coisas. Reprimir ou impedir que a criança use a sua boca como conhecimento do mundo pode até causar efeito contrário, prolongando a fase de experimentação oral.
Outro fantasma dos pais é a chupeta, famosa por "acalmar" os bebês. Ortodontistas constataram que 60% dos adultos que usam aparelho nos dentes chuparam chupetas e 20%, o dedo. Esses hábitos deformam a arcada dentária e entortam os dentes quando permanecem após os 2 anos de vida.
Bebês que sugam o peito da mãe têm a sua necessidade de sucção mais satisfeita, diminuindo os riscos de fixarem maus hábitos orais, como chupar dedos ou chupetas. Já os pequenos que fazem uso da mamadeira sentem maior necessidade de sugar, já que na hora de retirar o leite pelo bico da mamadeira não precisam sugar e, sim, só deixar o leite escorrer para a boca, não satisfazendo sua vontade de sugar.

Sugar é uma necessidade. A boca do bebê serve também para conhecer o mundo em que vive. Se os pais acham que esse hábito já está sendo prejudicial, procure o pediatra, fonoaudiólogo ou ortodontista para uma melhor avaliação.

Por Carmem Sanches

Alimentos perigosos para bebê


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Não existe consenso em relação à contraindicação de alimentos. A própria Sociedade Brasileira de Pediatria reviu algumas recomendações recentemente, antecipando a liberação de alguns deles, como ovos e peixes, depois de analisar vários estudos e chegar à conclusão de que a demora na introdução não diminuía os riscos de alergia. Conheça alguns alimentos que merecem atenção.

1. Leite de vaca
Ele não deve ser oferecido para o bebê antes do primeiro aniversário porque é difícil ser digerido e pode causar constipação intestinal, anemia e intolerâncias alimentares.

2. Mel
Outro alimento que só deve entrar no cardápio depois de 1 ano de vida. O mel pode esconder um tipo de toxina capaz de desenvolver uma forma de botulismo em crianças de poucos meses. Nessa idade, a flora intestinal ainda está em desenvolvimento e não consegue barrar a ação dessa bactéria.

3. Ovo
Segundo as novas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, o ovo pode ser introduzido a partir do sexto mês. Antes, ele só entrava em cena no nono mês (a clara apenas depois de 15 meses). Converse com o seu pediatra para juntos combinarem como agir.

4. Frutos do mar
Eles são recomendados somente após o primeiro ano de vida por disparar reações alérgicas.

5. Morangos
É uma delícia, mas espere seu bebê completar 2 anos para apresentá-los por causa do uso excessivo de agrotóxicos nessa fruta.

6. Peixe
A Sociedade Brasileira de Pediatria também liberou o consumo de peixes a partir do sexto mês. Converse com o seu pediatra e, quando oferecer, não se esqueça de retirar toda a espinha.

7. Amendoim e nozes
Eles tradicionalmente causam muita alergia, por isso aguarde até 1 ano e meio para oferecê-los. Ou mais, caso haja o histórico familiar de problemas com algum desses alimentos.

3 de janeiro de 2014

A ciência por trás do chilique

A cena parece ter saído de um filme de terror: por alguma razão inexplicável ou banal, seu filho de dois anos que há 5 minutos era a criança mais fofa do mundo, se transforma numa pessoinha raivosa e inconsolável. Ele se atira no chão e atira coisas em você. Ele chora compulsivamente, como se estivesse diante de uma tragédia enorme.  Como se o mundo fosse acabar. Como se ele fosse acabar. 

A última vez que minha filha sofreu a metamorfose "de fofa para louca" foi agora há pouco. O que desencadeou o ataque histérico foi simplesmente eu ter negado o segundo saquinho de balas que ela ganhou numa festa. Quando ela percebeu que a ingestão compulsiva de balas lhe estava sendo negada, ela se jogou no chão e começou a se estapear -  ?! Pausa aqui para minha absoluta cara de perplexidade. 

Crianças entre 1,5 e 3 anos de idade têm rompantes de raiva e frustração profunda com freqüência.  A boa notícia é que eles não fazem isso porque são mal educados ou porque tem uma falha na personalidade. Os chiliques são normais e existem explicações científicas para eles.

A revista Slate entrevistou 5 especialistas em psicologia infantil para buscar explicações para os famosos chiliques.  Depois de ler o que eles disseram você começará a achar o comportamento da sua ferinha absolutamente razoável. 

Confira:

Crianças com entre 1 e 3 anos de idade acabaram de aprender a andar e desenvolvem a cada dia novas habilidades psíquicas e motoras. Eles estão loucos para explorar o mundo fazendo uso do know-how recém adquirido. Ao mesmo tempo, os pequenos exploradores estão morrendo de medo do que podem encontrar por aí e estão sempre apavorados com a possibilidade de que seus pais os deixem sozinhos nesta aventura. E são justamente essas pessoas tão amadas, que deveriam lhes ajudar, que estão o tempo todo lhes negando o prazer da descoberta. Não entre aqui. Não mexa aqui. Não toque na faca.  Não enfie a mão dentro da privada. Não despeje o saleiro no tapete. "Eles não entendem suas razões. Eles só sabem que alguma coisa com a qual eles estavam se divertindo muito lhes foi repentinamente tomada, pelas pessoas que eles mais amam" explica Alice Lieberman, autora do livro "The Emotional Life of the Toddler". As crianças se sentem traídas. A dor delas é comparável ao que nós sentiríamos se fossemos traídos por nossos maridos ou esposas.

A incapacidade de se expressar perfeitamente também motiva os ataques de raiva. Enquanto nós adultos conseguimos indentificar e categorizar nossas emoções devido a nossa capacidade de se comunicar perfeitamente, crianças entre 1,5 e 3 anos ainda estão desenvolvendo a fala. Pesquisas científicas argumentam que a comunicação oral influencia muito a capacidade do ser humano de processar emoções negativas. Além disso, nós somos capazes de eventualmente negociar com pessoas que estejam agindo contra nossa vontade, enquanto crianças que não se comunicam perfeitamente não possuem esta alternativa. Sob esse ponto de vista pode parecer comprensível, que ao ser interrompido bruscamente de algo que lhe estava proporcionando prazer, a criança que não tem ainda a capacidade de argumentar à seu favor tenha um ataque de raiva e tente se defender com violência. Quem aqui ainda não foi alvo de algum objeto voador? 

Outro fato científico sobre crianças nesta idade: o lobo frontal ainda não está totalmente desenvolvido. Dessa forma, funções atribuídas a esta parte do cérebro como planejamento, raciocínio lógico, memória operacional e auto-controle, ainda não estão totalmente operantes no seu monstrinho. Com o lobo frontal funcionando parcialmente, crianças desta idade vivem absolutamente no aqui e agora. Não existe uma vozinha na cabeça deles dizendo "humm.. talvez seja melhor eu não jogar meu ursinho favorito na privada já que na semana passada ele ficou todo molhado". Alice Lieberman explica que é também por essa razão que as crianças têm dificuldade em ser pacientes e confundem querer com precisar. 

A psicologa Claire Koop, co-autora do livro Socioemotional Development in the Toddler Years, aponta a importância das experiências acumuladas durante a vida na hora em que temos que enfrentar desafios: "Crianças tão novinhas simplesmente não possuem uma bagagem vasta de experiências para empregar nos momentos de dificuldade."

Harvey Karp, pediatra e autor dos livros The Happiest Baby on the Block e The Happiest Toddler on the Block compara crianças entre 1,5 e 3 anos à pequenos homens da caverna. Sem nenhuma intenção de ofender nossos filhos, ele acredita que a comparação ajuda os pais a entenderem os filhos. "São necessários anos para socializar crianças. Os pais devem dar uma colher de chá para os filhos". Karp usa a analogia do homem das cavernas para apontar outro problema envolvendo os pequenos: eles são muito pouco estimulados. "Imagina como viviam os verdadeiros pequenos homens da caverna no passado? Um ambiente cheio de sensações: cheiros, ar puro, sombras, pássaros, grama sob os pés... Nós deixamos nossos filhos a maior parte do tempo entre 4 paredes e acreditamos que isso é normal." E completa:  "É difícil passar um dia inteiro com uma criança de dois anos, mas eles também não querem passar o dia inteiro com você."

E agora que está tudo explicado,  a pergunta de um milhão de dólares: o que fazer na hora dos ataques? Bom, isso é assunto para outra coluna, mas posso dividir aqui rapidamente a orientação que recebi do meu pediatra, e que vem funcionando. Conforme os especialistas acima explicaram, quando seu filho está tendo um ataque daqueles, ele está passando por um turbilhão de emoções com as quais ele não sabe lidar. Não se afaste dele. Ofereça conforto na medida do possível. Mas não ceda às suas vontades só porque ele esta chorando. Do contrário, ele vai aprender que pode conseguir muita coisa chorando e esperneando. E aí a coisa fica mesmo preta.