Síndrome de Menos Mãe: Algumas Considerações Psicológicas

SMM
Há poucas semanas, escrevi um post sobre o sentimento que muitas mulheres têm acerca de sua maternidade, percebendo-se ou sentindo-se julgadas por suas capacidades. A premissa que defendi foi a de que a mulher que se sente menos mãe (denominação dada pela grande maioria em suas defesas ou argumentações) desenvolve essa percepção de si mesma devido a conteúdos inconscientes, bem como por uma dificuldade pessoal em assumir responsabilidade por suas escolhas.
Pois não é que durante minhas leituras habituais encontrei fundamentação psicológica que corrobora e esclarece o que escrevi anteriormente?
 Antes de mais nada, vamos às definições. A “Síndrome de Menos Mãe ” (eu que inventei esse nome pra facilitar) ou SMM é caracterizada por:
  1. Sentimento de inferioridade;
  2. Mania de perseguição;
  3. Agressividade verbal ou escrita;
  4. Dissimulação;
  5. Incapacidade de reconhecer responsabilidade;
  6. Dificuldade de auto-percepção;
  7. Insegurança.
Como você pode reconhecer uma portadora de SMM? Simples:
  • Ela sempre vai dizer “não sou menos mãe porque…” (complete a frase com o que julgar que caiba) em quase toda conversa que tiver sobre o universo materno-infan
  • Apesar de agredir como forma de defesa, não consegue se firmar e sentir segurança no queA SMM tem origem no que chamamos de complexo materno. Complexo é uma reunião de imagens e idéias associadas a um arquétipo (modelos inatos do desenvolvimento psíquico). Quando entram em ação, são marcados pelo afeto e contribuem para o comportamento, quer a pessoa esteja ou não consciente dele. São fenômenos naturais que podem se desenvolver tanto positiva quanto negativamente. Traduzindo:a SMM tem origem no modelo interno de mãe que cada mulher possui.

Essa mãe interior é percebida, sentida e vivenciada como verdadeira, porém um adulto pode ter outras influências maternas que vão além de sua própria mãe biológica. Todos nós temos em nossa psique uma cópia de nossa própria mãe, que fala, reage e age igual à mãe de nossa infância. Aí está o complexo, nos resquícios e marcas de nossa própria mãe no psiquismo. É saudável que tomemos consciência do nosso complexo materno, pois é necessário que corrijamos, erradiquemos e recomecemos para nosso próprio desenvolvimento e para que possamos educar de forma diferenciada e mais consciente nossos próprios filhos, visto que também formaremos a experiência interna de mãe de cada um deles, tornando-nos um complexo.
Existem vários tipos de mãe. Em nossa cultura, padronizou-se um tipo de comportamento aceito para exercer as funções de maternidade: uso do berço, da mamadeira, da chupeta, filhos dormindo separadamente dos pais, pouca ou nenhuma amamentação, uso de complemento ou substitutivo ao leite materno, desmame precoce, introdução precoce de alimentos, uso de carrinhos, volta precoce ao trabalho por parte da mãe, escolarização e alfabetização precoce, cesarianas eletivas, terceirização da educação, tutela médica, paternalização da mulher, entre tantos outros que geram polêmica e discussões exacerbadas. A grande maioria das mulheres acaba cedendo a séculos de educação e muitas vezes tenta desesperadamente se ajustar aos padrões impostos.
Fazem isso movidas pelo medo: ninguém quer se ver sem acolhimento ou ser tratada com escárnio quando tem um filho nos braços. A mulher acredita que precisa daquele modelo que já vem pronto, sem necessidade de que desenvolva suas capacidades individuais e até mesmo suas peculiaridades maternas. Tem medo do isolamento e acredita que o mesmo possa levar à destruição. Molda os filhos para que ajam da mesma forma, sem perceber que as condições culturais mais destrutivas são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, ao próprio desejo.
Porém, existe uma natureza mais primitiva, inata, dentro de cada mulher. Uma voz ancestral que sussurra que um bebê apenas precisa da mãe, do seio, do calor corporal, do aconchego, do leite materno. É um conhecimento primário, que toda mulher carrega no seu DNA. É a voz da alma, que a cultura moderna incutiu na mente feminina como inadequada, errônea, incapaz. Uma cultura que exige da mulher que não escute sua essência é uma cultura muito doente. O que temos hoje é uma geração de mulheres que ACREDITA e CONCORDA com essa cultura, em detrimento de um saber inato e natural.
Muitas mulheres que escutam essa voz interna começaram a questionar o que a sociedade dita como correto. Muitas mulheres resolveram seguir essa voz e maternar seus filhos de uma forma diferenciada e que contradiz o modelo pronto. A SMM dá seus primeiros sinais exatamente aqui. Porque TODA MULHER, sem exceção, possui essa intuição que diz exatamente o que é melhor pro seu filho. TODA MULHER escuta esse sussurro ancestral, mas a grande maioria foi doutrinada a ignorar esse chamado.
Quando uma mulher, que tem um modelo interno de mãe mais submissa, uma mãe interna prostrada, cruza com uma que tem uma mãe interna mais questionadora, livre, inevitavelmente vão haver rusgas. Pelo simples fato de que aquela que questiona vai fazer justamente o que a outra tem medo: desequilibrar ostatus quo, sem medo (ou não) das consequências. A portadora de SMM vai se sentir incomodada porque alguém vai falar às claras o que ela escuta no seu íntimo, mas que foi educada a não poder ouvir pra não perder seu lugar e função dentro da sociedade, da cultura. São dois complexos maternos batendo de frente, um que diz que a mulher tem que acatar e o outro que diz que a mulher tem que questionar e seguir seus instintos, sua intuição. Um complexo que aceita a paternalização e a tutela, o outro que não aceita. E o complexo materno mais, digamos, submisso, atua tão agressiva e defensivamente da forma que atua pois, lá no fundo, a mulher percebe que algo está fora de ordem, que algo precisa ser revisto.
Não quero com isso tudo que escrevi paternalizar, subjugar ou diminuir nenhuma mulher em nenhuma de suas funções. Apenas quis explanar acerca de um tema polêmico, evidenciando que existe uma fonte para esse fenômeno tão comum na maternidade atual. Existem raízes psicológicas para as manifestações que presenciamos cotidianamente, lembrando que nenhuma mulher é mais ou menos mãe para suas crias. Na realidade, somos as mães que escolhemos ser, conscientemente ou não.
O trabalho “Síndrome de Menos Mãe”: Algumas Considerações Psicológicas de Elaine Miragaia foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

Comentários