Um olhar psicológico sobre o aleitamento materno

Amamentar é um ato natural, reconhecido como a melhor forma de alimentar, proteger e amar uma criança, suprindo todas as necessidades do bebê nos primeiros meses de vida, para um crescimento e desenvolvimento sadio.



O termo amamentação se difere do aleitamento materno, pois de acordo com Rego (2008, p.11): “O conceito da amamentação é o ato da mãe dar o peito diretamente para o bebê mamar e o aleitamento materno é o meio pelo qual a criança recebe o leite de sua mãe.” Seja através da mama, pelo copinho ou até mesmo pela mamadeira.

Mas a amamentação vai muito além destes conceitos, pois além de propiciar, pelo leite materno, a melhor fonte de nutrição para os lactentes e a proteção contra diversas doenças agudas e crônicas, também possibilita um melhor desenvolvimento psicológico.

A amamentação não é apenas uma técnica alimentar: é muito mais do que a simples passagem do leite de um organismo para o outro, ainda que diretamente ao seio. Ela é um rico processo de entrosamento entre dois indivíduos um que amamenta e o outro que é amamentado.

No entanto, muitos são os fatores que afetam o modo como as mulheres alimentam seus filhos e o tempo durante o qual os amamentam. Isso ocorre porque sua prática tem sofrido variações ao longo dos anos, devido aos fatores familiares, biológicos, psicológicos e socioculturais.

Se hoje comemoramos o dia internacional do aleitamento materno é porque houve, ao longo dos tempos, uma grande mudança de cultura, pois a história nem sempre valorizou esse ato, pelo contrário...

Se recuarmos um pouco na história podemos verificar que a questão do aleitamento materno tem vindo a ser entendida de diversas formas ao longo dos tempos. Durante muitos e muitos anos era indecoroso, nomeadamente nas classes mais abastadas, que as mães criassem os seus filhos, e estava fora de questão a sua amamentação. Até aos finais do século passado, em muitos países europeus, o aleitamento materno estava e permaneceu a cargo de amas-de-leite. O termo ama de leite pode ser entendido como: “A mulher que amamenta criança alheia quando a mãe natural está impossibilitada de fazê-lo.” Geralmente esse encargo era dado às escravas que já tinham filhos, não sendo frequente a amamentação ao peito da própria mãe. Já os romanos filósofos e moralistas, condenavam o aleitamento exercido pelas amas de leite, pois eles acreditavam que: “[...] o vínculo entre a criança e a ama de leite prejudicava a relação entre a criança e a mãe natural.”

Hoje em dia esta situação já não ocorre, mas continuam a existir fatores, quer sociais, quer psicológicos, para alguma ocorrência de aleitamento artificial. Então, percebe-se que, apesar de a amamentação ser uma escolha individual, ela se desenvolve dentro de um contexto sociocultural, portanto influenciada pela sociedade e pelas condições de vida da mulher.

A amamentação é muito importante, tanto como fonte de nutrição para o bebê, quanto pela transferência de imunidade que a mãe oferece a partir do colostro. Os aspectos psíquicos e emocionais do binômio também recebem ênfase especial, pois durante o aleitamento materno se estabelece a cumplicidade e o vínculo afetivo entre ambos.

Apesar de a criança sentir necessidade física de leite, sua necessidade emocional é igualmente forte, por isso precisa do contato com a mãe, de tranquilidade e de amor, recebidos enquanto mama.

Do ponto de vista emocional, amamentar traz inúmeras vantagens, pois, a interação rica entre mãe e filho proporciona uma mútua satisfação. A ligação forte entre ambos, o contato íntimo da pele e o olhar permitem que sintam um enorme prazer neste ato. Este contato possibilita que o amor vá aumentando a cada mamada, construindo uma base sólida, vinculando para sempre mãe e filho. As crianças privilegiadas por este contato precoce com suas mães após o parto são menos ansiosas e mais tranquilas, sofrendo menos estresse causado pela separação do corpo materno.

Na verdade, o contato físico para o bebê é um estímulo agradável, que por ser uma necessidade biológica e vital, permite que ele alcance mais plenamente suas potencialidades. Porém, o início da formação deste vínculo não começa no parto. Ele começa já durante a gravidez.

Assim sendo, faz-se necessário deixar que mãe e bebê se reconheçam, pois, um sistema de comunicação equilibrado entre ambos é que vai orientar e facilitar a relação da mãe com a criança e a consequente formação do vínculo, que vai se solidificando no desenrolar desta interação.

A amamentação é um direito adquirido pela mãe. Dar de mamar depende da sua escolha e de algumas questões culturais que envolvem a família, o marido e até fatores estéticos. Algumas mulheres se adaptam à nova rotina, outras não. Isso acontece porque, apesar de ser um ato natural na teoria, na prática o processo pode ser bem mais difícil.

As dificuldades e o possível fracasso serão maiores quanto menor for a preparação e conscientização da futura mãe no período pré-natal. Se, por falta de oportunidades da mãe interagir com seu filho, o estabelecimento do vínculo e apego for prejudicado, pode gerar desordens no relacionamento futuro de ambos.

Há sistemas neuroquímicos, como os da ocitocina e vasopressina, desenvolvidos no cérebro da criança, que operam em sintonia com o afeto materno, reforçando o equilíbrio emocional ou gerando agressividade e outros comportamentos sociais. São sistemas sensíveis aos cuidados com a criança durante os primeiros anos de vida. Seus efeitos dependem do vínculo afetivo que se estabelece entre a mãe, a criança, o pai e a família como primeiro grupo social.

Pelo exposto acima percebe-se que, quando essa vinculação afetiva não acontece na infância é muito provável que tenhamos um adulto incapaz de vincular-se nos grupos sociais, com facilidade para o descontrole das emoções, caminhando para a agressividade. Por isso, incentivar o vínculo afetivo na idade adequada é um direito fundamental do ser humano, pois é ele vai garantir suas relações estáveis e seu equilíbrio emocional. E a intimidade física da prática de amamentar dispensa os obstáculos que possam existir de forma tal que nenhum outro esforço consciente por parte da mãe consegue igualar.



Sendo assim, o que dizer da mãe quando por motivos diversos se vê impossibilitada de amamentar? Como fica sua imagem de boa maternagem? Abre-se aí um hiato entre a maternidade e a amamentação, sendo necessário analisar todos os aspectos subjetivos e emocionais, advindos da prática interrompida, já que esta pode trazer sérias consequências psicológicas para o binômio.

Importante reforçar que durante a nutrição do bebê pela mamadeira deve-se ter como elemento mais importante as condições para que se estabeleça uma relação de cumplicidade satisfatória entre a dupla, para que assim também ocorra um desenvolvimento satisfatório do bebê.

O apego ao filho não nasce repentinamente e nem sempre será instintivo ligar-se a ele. Este vínculo se estabelece continuamente e os bebês contribuem efetivamente para que ele ocorra

desde as primeiras horas após o parto. O elo afetivo formado será imprescindível para o desenvolvimento infantil e sua falta pode prejudicar a criança. Desta forma, um bebê que não foi amamentado ao seio, não será necessariamente infeliz, considerando que, mãe e filho, podem desfrutar de sensações incríveis de amor e confiança de outra forma.

Porém, é inegável que uma amamentação eficiente desperta na mulher um sentimento de ligação mais profunda com o filho e de realização como mulher e mãe. No entanto, qualquer nutriz pode ter experiências boas e agradáveis, ao mesmo tempo em que, difíceis e cansativas.

Podemos aferir desta observação que para ser boa mãe não há a obrigatoriedade do aleitar, salvo se a mulher assim o queira. Não existe, portanto, qualquer impedimento para que mulheres que não amamentem não sejam encorajadas a dar atenção e amor ao seu bebê. Além disso, nem sempre uma experiência bem sucedida de amamentação resulta num bebê satisfeito, se esta amamentação não resulta de uma verdadeira riqueza de experiência e de envolvimento.

O amor de mãe e filho é construído aos poucos a cada contato e que se este for um contato de qualidade, terá influências positivas na vida do bebê nos primeiros meses e futuramente também. Da mesma maneira que vai favorecer o relacionamento com outras pessoas no decorrer de sua vida e na sua capacidade de ser feliz.

A grande questão aqui discutida é como dar conta desta representação do mito da mãe perfeita para as mães impossibilitadas de amamentar? Como criar condições para que as mães possam amamentar com alegria e tranquilidade os seus filhos?

Quando existe a impossibilidade de amamentar, cabe à mãe achar suporte na família e naqueles que a cercam, uma vez que elas são levadas a acreditar que a amamentação além de ser um momento de grande importância para o binômio, também é fundamental para a construção da relação afetiva entre ambos. Atitudes desta natureza colaboram para que, este momento único, carregado de emoções e significados, seja conduzido de forma mais tranquila.

Da mesma maneira, o apoio do profissional de saúde será essencial, tendo em vista que, na dinâmica da alimentação, seja por aleitamento no peito ou por meio artificial, o profissional de saúde tem um papel importante na promoção dos recursos naturais e ambientais.


Fonte:
Ada Melo
Psicóloga
http://psiqueonlinee.blogspot.com.br

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