Avós podem influenciar negativamente na amamentação


O leite materno é recomendado como fonte exclusiva de alimentação ao lactente durante os primeiros seis meses de vida. A partir desta idade - e até os dois anos e meio - a dieta pode ser complementada.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, somente 39% das crianças recebem o leite materno como único alimento até os seis meses de vida. As pesquisadoras Lulie R. O. Susin e Elsa R. J. Giugliani, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Suzane C. Kummer, da Secretaria Municipal de Porto Alegre, analisaram de que forma a influência das avós pode afetar - positiva ou negativamente - o aleitamento materno.

O estudo foi realizado com 601 mães de recém-nascidos normais nascidos em hospital universitário na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. Os dados foram coletados na maternidade e nos domicílios, com um, dois, quatro e seis meses após o parto, mediante entrevista com as mães.

Segundo artigo publicado na edição de abril da Revista de Saúde Pública, "as informações sobre as avós maternas e paternas foram obtidas na primeira visita domiciliar quando as crianças completavam um mês. Entre os tópicos perguntados estavam questões como: freqüência de contato do recém-nascido com as avós; opinião das avós quanto ao fato de a mãe estar amamentando e se a avó havia aconselhado e/ou oferecido à criança água e/ou chá ou outro tipo de leite".

A pesquisa indicou que a maioria das mães que amamentavam teve contato freqüente com suas mães (67,9%) e sogras (59,6%). Mais da metade das avós maternas (56,0%) e paternas (54,0%) aconselhou o uso de água e/ou chá. A iniciativa de oferecer esses líquidos aos recém-nascidos foi tomada por 17,3% das avós maternas e 11,3% das paternas. O uso de outro leite - que não o materno - foi recomendado por aproximadamente 12,5% das avós. "O fato de avós recomendarem água e/ou chás aumentou em até 2,5 vezes o risco para a criança não estar sendo amamentada exclusivamente no final do primeiro mês.

Quando a avó materna aconselhava o uso de outro leite, o risco para a criança não receber o leite materno como única fonte de alimento no primeiro mês de vida aumentou 4,5 vezes", informam as pesquisadoras.

O contato com as avós foi freqüente na maioria dos casos estudados. Por questões econômicas, muitas famílias continuam a dividir a residência ou o terreno após a formação de uma nova família. Por isso, segundo a equipe de pesquisadoras, "planos estratégicos para a promoção do aleitamento materno não podem desconsiderar esse fato. Além disso, é importante levar em consideração que o aconselhamento para o uso de água e/ou chás já no primeiro mês pode contribuir para o abandono da amamentação exclusiva".

As cientistas também explicam que "mais de 75% das avós da amostra estudada tiveram seus filhos na década de 60 ou 70, época em que o aleitamento materno, em especial o exclusivo, não era tão valorizado. Nessa época, o uso de água e chás era recomendado pelos pediatras e a crença no ´leite fraco´ ainda imperava.

Ao que parece, as avós estão apenas transmitindo às suas filhas ou noras a sua experiência com amamentação, acreditando ser o mais adequado". A menor duração do aleitamento materno também pode ter como agravante o fato de algumas mães delegarem às próprias mães ou sogras, parte do seu papel de mãe. Mas, segundo as pesquisadoras, são necessários estudos mais específicos para investigar essa questão.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, crianças que não recebem o leite da mãe têm 14 vezes mais chances de morrer por diarréia. As chances de morrer por pneumonia aumentam em até 4 vezes.

Os resultados da pesquisa em Porto Alegre indicam que as avós podem influenciar negativamente na amamentação - seja na sua duração ou na sua exclusividade. "O aleitamento materno é um processo altamente influenciado pela cultura. Sendo assim, é preciso desenvolver estratégias de promoção dentro de um contexto cultural adequado à população-alvo.

Analisando os resultados deste estudo, podemos afirmar a importância da inclusão das avós em programas de promoção do aleitamento materno, que poderiam expor crenças com relação à amamentação e receber novas informações. Dessa forma, as avós estarão mais preparadas para exercer influência positiva para uma amamentação bem-sucedida de suas filhas ou noras", concluem.


Fonte: http://www.saudeemmovimento.com.br/reportagem/noticia_frame.asp?cod_noticia=1885
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