“Mais do que entender seus filhos, os pais precisam saber como educá-los”

Um respeitado psiquiatra infantil explica como uma separação sem sofrimento ajuda a criança a crescer
KÁTIA MELLO

De quatro décadas de trabalho com crianças com problemas psicológicos, o psiquiatra francês Marcel Rufo extraiu lições sobre dificuldades comuns a todos os pais – como o meio-termo entre equilíbrio e superproteção e a abordagem da sexualidade dos filhos. Rufo discute essas questões em dois livros recém-lançados, Me Larga! Separar-se para Crescer e Tudo o Que Você Jamais Deveria Saber sobre a Sexualidade de Seus Filhos (editora Martins Fontes).
ENTREVISTA
Marcel Rufo
VIDA 
Nasceu em 1944 em Toulon, no sul da França

CARREIRA É chefe da clínica do hospital Sainte-Marguerite, em Marselha. Tem um programa de rádio de sucesso na França, onde trabalha com psicologia infantil

OBRA Lançou no Brasil Me Larga! Separar-se para Crescer e Tudo o Que Você Jamais Deveria Saber sobre a Sexualidade de Seus Filhos
ÉPOCA – Por que o senhor diz que os pais de hoje querem compreender os filhos, mais que educá-los?
Marcel Rufo
 – Os pais de hoje fizeram progressos extraordinários em relação aos de antigamente. Os filhos nunca foram tão bem criados. Do ponto de vista físico, corporal, não há mais preocupações. O problema que resta aos pais é se os filhos vão ser felizes e inteligentes. Para isso, é preciso compreendê-los. Hoje, os pais, mais que educar, tentam entender seus filhos. E compreender é mais democrático que educar. Houve uma “democratização” da família, que virou uma espécie de sindicato em que todos podem falar e debater. É por isso que os filhos, que não são bobos, não nos abandonam mais. Eles têm mais dificuldade para partir que para ficar.
ÉPOCA – Isso quer dizer que o progresso dos pais não é necessariamente bom?
Rufo
 – Os pais progrediram, mas é preciso que aprendam a não ser tão bons assim. O psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896-1971) criou um conceito muito interessante, o de “good enough mothers”, “mães boas o suficiente”. Esse termo mostra bem o que é preciso fazer. Ser um pai mediano, e não excelente, ajuda as crianças. No fundo, os filhos nos amam por nossos defeitos, mais que por nossas qualidades.
ÉPOCA – Como evitar a superproteção?
Rufo 
– Separar-se de uma criança é respeitar seu gosto pela aventura e pela descoberta. É preciso, de vez em quando, deixar segredos para que os filhos façam suas próprias descobertas, o que não ocorre quando os pais estão sempre presentes. Cabe às crianças, sozinhas, “redescobrir” as coisas que nós mesmos descobrimos quando tínhamos a idade delas.
ÉPOCA – Hoje é comum que crianças façam terapia. Com que idade elas podem fazer análise? E com que idade se pode prescrever medicamentos para tratar problemas psicológicos?
Rufo
 – Muito cedo. Pode-se fazer análise com 6 ou 7 anos. O mais comum é que se comece com 13 ou 14. Quanto a medicamentos, não gosto muito deles. Prefiro formular hipóteses sobre o futuro da criança e cometer equívocos na análise a receitar remédios. O psiquiatra deve prescrever a si mesmo, como se fosse um medicamento. Meu melhor remédio é a palavra.
ÉPOCA – O que o senhor pensa das famílias em que, por conta das separações, os filhos têm dois pais e duas mães?
Rufo
 – Não é tão ruim assim. A partir do momento em que os pais se separam, é melhor ter um padrasto e uma madrasta que ter o pai ou a mãe isolados. Quando os cônjuges que se separaram se recompõem em um casal, isso ajuda a restabelecer a afeição.
ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre a guarda compartilhada, em que pai e mãe dividem por igual o tempo com os filhos?
Rufo
 – Não gosto. Crianças precisam de um único lar, mais que de pais que se revezem. Na guarda compartilhada, a criança não veste o luto da família perdida: ela sempre vai acreditar que tudo pode recomeçar. Creio que ela só funcione em casos excepcionais, de famílias muito inteligentes, com excelentes condições financeiras e em que pai e mãe não vivam muito longe um do outro.
Quando uma criança de 2 anos mente, isso quer dizer que ela pensa. Fico maravilhado quando mentem para mim
ÉPOCA – Que sistema o senhor considera ideal, então?
Rufo
 – Um sistema melhor seria outro tipo de alternância. Por exemplo, de 0 a 3 anos, o filho fica com a mãe; de 3 a 6, com o pai; de 6 a 12, com a mãe; e assim por diante. Essas idades correspondem às fases da escola: maternal, ensino fundamental, ensino médio... É bom que o pai reivindique seu direito sobre os filhos, mas quando eles são pequenos nada substitui a mãe.
ÉPOCA – Como o abandono e a posterior adoção afetam o futuro da criança?
Rufo
 – Como psiquiatra, vejo muitos casos difíceis de filhos adotivos. Toda criança adotada sonha com a família biológica. Vou dizer uma coisa que pode parecer surpreendente: é mais difícil ser filho adotivo em um meio socialmente elevado que em famílias modestas. O motivo é que, numa família rica, a criança tende a ser fiel a sua origem biológica “misteriosa”, e não quer ser como a família que a acolheu.
ÉPOCA – Qual seria a melhor forma de tratar os bebês candidatos a adoção?
Rufo
 – Meu modelo teórico é um que foi adotado por uma instituição para menores abandonados de Budapeste, na Hungria. Lá, uma cuidadora fica 18 meses, às vezes dois anos, sempre com o mesmo bebê. A mãe pode não estar por perto, mas esse sistema funciona como uma espécie de “suplementação maternal”. E isso ajuda muito o bebê.
ÉPOCA – Muitos menores abandonados acabam na delinqüência juvenil. O senhor acha que uma criança que sofreu com o abandono é recuperável?
Rufo
 – A diferença entre o tratamento psiquiátrico de um adulto e o de uma criança é que, com as crianças, tudo ainda é possível, nada é definitivo. Um menor abandonado pode encontrar uma boa família adotiva; pode ter um professor notável; pode ter grandes amigos; pode viver uma bela história de amor. Nessas condições, a criança adotada pode se sair bem na vida.
ÉPOCA – Por que o senhor diz que as crianças precisam mentir?
Rufo
 – Quando uma criança de 2 ou 3 anos mente, isso quer dizer que ela pensa. Sou fã da mentira. Adoro crianças que mentem. Quando um menino me diz: “Já fui a três psiquiatras, e não adiantou nada”, e descubro que não é verdade, fico maravilhado. E digo isso aos pais. É um desafio que a criança impõe, uma bela forma de resistência. Às vezes, a mentira é uma forma de enfrentar uma realidade que é difícil.
ÉPOCA – Por que os pais, em sua opinião, interferem excessivamente na vida sexual dos filhos?
Rufo
 – Porque são idiotas (risos). Assim como nós só adquirimos nossa própria sexualidade porque ignoramos a de nossos pais, é preciso que os pais “ignorem” a dos filhos.
ÉPOCA – Quais os casos mais difíceis que o senhor enfrentou como psiquiatra?
Rufo
 – Os de filhos desprezados pelos pais. Aqueles que os pais não acham inteligentes e dizem “você é muito burro para entender o que eu digo”. A sevícia psicológica é quase tão ruim quanto a sexual. O abuso psicológico é terrível porque você não é reconhecido aos olhos daquele com quem deseja se parecer. Costumo dizer que os pais têm de ser “torcedores” do filho, assim como se torce pelo Boca Juniors.
Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis/Latin Stock

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