O saber dos pais, as invenções das crianças e o conhecimento dos especialistas

Livros de “autoajuda para pais”, com regras aplicadas ao sono, alimentação ou birra, prometem resolver um a um os “problemas” de educação das crianças de forma eficaz e generalizada. Com filhos, porém, cada vez que se aprende a resposta, muda a pergunta.

Foi-se o tempo em que se pedia conselho para a vovó sobre o que fazer para a cólica do bebê acalmar; em que se conversava com uma amiga mais experiente sobre o processo de retirada da fralda; em que se passava de geração em geração a receita da primeira sopinha; ou em que as comadres trocavam ideias sobre como encarar as noites mal dormidas de bebês com menos de um ano.
Ser pai e mãe implica realizar escolhas, e essas escolhas comportam riscos. Diante deles, hoje em dia, os pais costumam recorrer a um arsenal de pseudotécnicas contidas em livros de “autoajuda para pais” que, com suas regras aplicadas ao sono, alimentação ou birra, prometem resolver um a um os “problemas” de educação das crianças de forma eficaz e generalizada.
Os pais logo constatam que alguns desses procedimentos podem, no melhor dos casos, funcionar por algum tempo, mas não resolvem. Se a questão em certo momento era o sono, passa a ser a alimentação, a retirada das fraldas, as mordidas dos amigos, as lições de casa, as turminhas da escola… e por aí vai.
Com filhos, cada vez que se aprende a resposta, muda a pergunta. Certamente ao longo do processo algo se aprende. O problema é ficar com a ilusão de que esse aprendizado será diretamente aplicável a outro alguém. É frequente, nesse sentido, a ilusão de que tudo será mais fácil com o segundo filho. Mas esse segundo sempre chega causando novas perguntas, pegando os pais desprevenidos onde eles menos esperavam.
Se na vida é assim, os livros de “autoajuda educacional” fazem tudo parecer muito fácil: “um, dois, três” e a regra será cumprida; “alguns choros e o bebê passará a dormir bem”; “algumas estrelinhas coladas como prêmio na cartela e a criança passa a provar todos os grupos alimentares” são consignas bastante comuns oferecidas por esses livros que atravessam a transmissão entre pais e filhos na atualidade.
Se “não funciona” só pode ser porque a técnica não foi bem aplicada por “incompetência dos pais” – esse é o efeito que neles provoca e é mesmo o argumento simplório utilizado pelos autores de muitos desses livros. Se “parece fácil” é porque, nessas pseudotécnicas, as variáveis são reduzidas a tal ponto que se pretendem aplicáveis a todos de forma indistinta, como se fosse possível educar uma criança sem considerar justamente o que lhe diz respeito.
Por que alguém dorme fora de hora, perde o sono, come muito ou tem falta de apetite? Por que alguns passam a morder ou a ser alvos de mordidas? Por que começa a escapar o xixi de noite quando antes isso estava bem organizado? Por que a criança pede sempre para ler a mesma história? Por que repete a frase do desenho que vê na TV? Por que não para quieta?
As causas desses acontecimentos são muito variáveis. Antes de querer ter a técnica infalível e eficaz que suprima todos os pequenos sintomas que inevitavelmente fazem parte da constituição de uma criança, ou dos grandes sintomas que podem se apresentar nesse processo e que tornam necessária ajuda profissional, é preciso se interrogar. É um bom começo para produzir respostas singulares que digam respeito a essa criança, a esses pais e a essa família, nessa escola e nessa sociedade.
Organicamente está tudo bem com a criança? O que aconteceu recentemente em sua vida? A que ela pode estar respondendo desse modo? Por que isso incomoda tanto os outros? As técnicas generalizadas para educar crianças, que fazem tudo parecer tão fácil, vendem como água, mas têm um preço: suprimir essas valiosas interrogações dos pais que são a chave para que possam avançar na questão do que se pode aprender ao ter um filho; do que há de mais desafiador, intolerável ou fascinante para nós no encontro com um ser em plena constituição que depende radicalmente do que possamos propiciar-lhe diante de seus impasses para que ele possa produzir saídas mais interessantes para a sua vida.
Ter um filho leva os pais a revisitar suas próprias escolhas diante da vida e as suas próprias respostas diante da geração anterior. São interrogações de valor inestimável e simplesmente aniquiladas quando se reduz o processo de formação de uma criança a procedimentos eficazes.
Recentemente caiu em minhas mãos um livro chamado “manual de instruções do bebê”, que explicava como proceder na “manutenção” cotidiana de um bebê, com o mesmo formato dos manuais que acompanham as máquinas recém compradas. Nas primeiras páginas pensei que era uma piada, mas não era.
Como psicanalista, não são poucas as crianças que recebi no consultório, algumas das quais com importantes sintomas no sono, e outras com terror noturno, nas quais “aplicaram” o método “nana nenê” (que propõe deixar o bebê chorando no berço em espaços de tempo cada vez maiores, controlando os intervalos por uma tabela de minutos, até que ele durma sozinho). Apesar de ser duramente criticado, o livro continua a vender. Que venda tanto leva a pensar por que, na atualidade, os pais precisam apoiar sua autoridade em frustrar ou atender as demandas dos filhos em procedimentos que contabilizam a sustentação dessa frustração em tabelas e em minutos. Como se planilhas de Excel pudessem conter a resposta objetiva e eficaz diante dos mal-entendidos que se experimenta com os filhos.
Os pais mesmos estão tão angustiados perante as exigências sociais de eficácia que temem suas interrogações. O que da criança escapa à adaptação é logo taxado com um diagnóstico patológico por meio de questionários autoaplicáveis via internet.
O não saber dos pais é muito mais complexo que a simplificação de cada uma dessas pseudotécnicas. Fazer a relação pais-bebê encaixar nesses procedimentos e tomá-los por tolos, apagando a singular riqueza de cada um e a diversidade encantadora que nos faz humanos. Suprimir as interrogações dos pais com essas técnicas é jogar fora o bebê junto com a água do banho. Além disso, como clínicos, constatamos que a pergunta que é suprimida sempre retorna, se não no sono, na comida; se não na comida, na fralda; se não na fralda, nas amizades. Então melhor é escutar.
O que se subtrai desse tecnicismo generalizado é justamente algo que conta e muito para decidir o que fazer diante que cada ato de educação: que valor têm a fralda, a chupeta, o sono ou a mamadeira – cada um desses pequenos objetos – na relação da criança com os demais, pois o sentido desses objetos não é intrínseco nem plenamente generalizável.
Nunca se tem de antemão todas as respostas do que fazer. Isso é uma produção singular na relação com cada filho. Mas isso pode virar um problema quando “procedimentos técnicos” supostamente infalíveis impedem a interrogação a partir da qual a experiência e o saber único dos pais e da criança podem emergir. Se um filho traz novas questões, no melhor dos casos pode-se produzir aí, nessa relação, um saber-fazer.
Para tanto é preciso contar com interlocutores que ajudem a desdobrar essa experiência única: gerações anteriores, amigos e até mesmo, mas não só, clínicos. É próprio da clínica interdisciplinar com a infância que parte de uma concepção psicanalítica que os clínicos considerem centrais as perguntas dos pais e o fazer da criança. Diante deles, os clínicos colocam em cena seus conhecimentos sobre a infância para que os pais possam construir, a partir de suas interrogações, saídas singulares diante dos enigmas que ser pais desperta e diante dos quais as crianças, por sua vez e no melhor dos casos, nos surpreenderão.
Conviver com crianças coloca inevitavelmente em cena a responsabilidade de transmissão às próximas gerações, diante da qual as crianças podem ter o dom de abrir para nós novas perguntas diante de velhas respostas. Basta que saibamos escutar. Esta é a proposta deste blog: psicanalistas, médicos, fonoaudiólogos, educadores – especialistas que tratam há mais de 20 anos de bebês, crianças e adolescentes – propõem dialogar com os pais em torno das questões que a infância produz, trazendo a debate um assunto por semana.

Psicanalista, especialista em Clínica com Bebês; mestre e doutora em psicologia clínica pela PUC-SP; membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre APPOA e da Clínica Interdisciplinar em Problemas do Desenvolvimento Infantil Centro Lydia Coriat; professora de especialização em cursos de Psicomotricidade; Teoria Psicanalítica; Problemas do Desenvolvimento Infantil e Clínica Interdisciplinar com Bebês; autora dos livros Enquanto o futuro não vem – a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês (2002; Ed. Ágalma) e A criação da criança- brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê (2011, Ed. Ágalma);

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