25 de agosto de 2014

Experiências antes da gravidez influenciam tanto na gestação quanto em comportamento e saúde dos filhos

Uma série de estudos independentes publicados na última sexta-feira na revista Science demonstra que os filhos não são apenas a soma do genoma dos pais. Na realidade, a receita do comportamento biológico e mental de uma criança inclui ingredientes que não podem apenas ser rastreados em exames de DNA. Experiências que os genitores tiveram antes mesmo da concepção, além de programar a trajetória de desenvolvimento do embrião e do feto, afetam fisicamente a saúde e o comportamento da criança ao longo da vida.

A pesquisadora Sarah Robertson, da Universidade de Adelaide, na Austrália, descreve, em um artigo de revisão, que óvulos e espermatozoides transferem o material genético dos pais e também deixam um legado de informações adicionais que reflete as exposições e as experiências vividas por eles. Nos últimos estágios dos gametas, existe um processo, chamado impressão genômica, que basicamente consiste na regulação de determinados grupos de genes que moldam a personalidade do bebê.

Em outras palavras, a impressão genômica funciona como um arquivo relevante da história dos pais que influencia o desenvolvimento da mente e do corpo do filho. Os fluídos que cercam o embrião, por exemplo, funcionam como um microcosmo que reflete o mundo exterior. Portanto, características nutricionais, metabólicas e inflamatórias da mãe têm capacidade de gerar uma trajetória de desenvolvimento embrionário adaptada ao ambiente externo.

Apesar de boa, essa estratégia nem sempre é garantia de sobrevivência. Um dos casos que ilustra a situação é o do bebê cuja mãe consumia pouca proteína durante a concepção. Além de ser muito ansioso, ele tende a ter pressão alta e a ganhar peso rapidamente. “Se o fenótipo resultante for uma combinação pobre para as condições após o nascimento ou se a adaptação não for eficiente para suportar os desafios posteriores, os descendentes estão em risco”, diz Robertson.

Comportamentos paternos também exercem influência duradoura. Já é bem conhecido que o tabagismo, a idade e a exposição a substâncias químicas relacionados ao pai aumentam o risco de os filhos dele desenvolverem cânceres e distúrbios neurológicos ainda na infância. Uma informação apresentada recentemente é que a massa corporal do genitor tem mais impacto do que a da mãe na gordura corporal e nas taxas metabólicas das crianças quando elas atingem a pré-adolescência.

Comportamentos
Atualmente, o interesse nas contribuições epigenéticas entre gerações é grande. Estudos epidemiológicos em humanos encontraram relações inesperadas, como o fato de a disponibilidade de alimentos do avô esta associada à mortalidade dos netos, e o de o tabagismo paterno desencadear a obesidade principalmente entre meninos. Em ratos, estudos mostraram que desequilíbrios nutricionais dos pais aumentam as chances de os filhotes fêmeas sofrerem com a saúde metabólica desregulada.

Há ainda evidências de que experiências de vida mais subjetivas possam moldar o comportamento dos ratinhos. Machos condicionados para responder a um odor específico que estimulava o medo tiveram crias que herdam a mesma reação ao cheiro. Efeitos similares foram observados em filhotes cujos pais passaram pelo estresse da separação materna quando jovens. “Esses estudos intrigantes elevam a perspectiva de que existem especificidades na transmissão de características adquiridas ao longo da vida. Até o momento, nenhum mecanismo biológico plausível surgiu para explicar isso”, reforça Robertson.

“Em última análise, uma vez que as vias forem definidas e priorizadas de acordo com a importância para a saúde, será possível definir como os futuros pais poderão atenuar as suas escolhas de estilo de vida e adotar intervenções para proteger as crianças dos efeitos adversos”. A ciência já provou que doenças que parecem apenas comportamentais, como a depressão, também podem ser herdadas (inclusive geneticamente). Nesse sentido, a depressão pós-parto tem papel fundamental: os primeiros sintomas aparecem durante a gestação e influenciam o aparecimento da enfermidade no filho.

Agressividade muda com a gestação
A série de artigos publicada na Science também discute o comportamento dos pais em relação aos filhos. Uma grande variedade de atitudes tem sido descrita em animais de vários gêneros e espécies levantando questões fascinantes sobre como eles — incluindo os humanos— identificam suas crias e como os circuitos cerebrais conduzem e moldam essas condutas entre machos e fêmeas. Um dos pontos centrais é o comportamento agressivo de pais mamíferos em relação aos filhotes.

A violência é comum entre ratos machos, especialmente os virgens. As fêmeas que nunca tiveram filhotes chegam até a assassinar recém-nascidos. O engraçado é que esses comportamentos mudam quando esses animais se tornam pais. A partir disso, passam a cuidar de todos os filhotes, independentemente do gênero.

Catherine Dulac, pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA), especula que circuitos neurais existentes em todas as espécies regulam as interações dos pais com seus descendentes. Notavelmente, o comportamento natural dos adultos com as crianças emerge quando alguns sistemas neurais são desligados e outro ligados. No caso dos ratos, esse sistema é a área tegmental ventral (VTA), um dos principais mecanismos envolvidos na respostas de recompensa e aprendizagem.

“Estudos futuros devem explorar a diversidade natural dos sistemas parentais para obter insights sobre as engrenagens que regulam o comportamento dos pais em contextos fisiológica e ecologicamente relevantes. Esses resultados podem lançar uma nova luz sobre a complexidade do comportamento parental humano e a relação dele para a doença mental”, acredita Dulac.

Fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2014/08/20/internas_cienciaesaude,524028/experiencias-antes-da-gravidez-influenciam-tanto-na-gestacao-quanto-em-comportamento-e-saude-dos-filhos.shtml

15 de agosto de 2014

Aleitamento Materno e sua relação com a Psicologia e a Psicanálise

Para pensar o aleitamento no âmbito da psicologia:
MANEJO DO ALEITAMENTO: o que a psicologia tem haver com isso?

As questões de manejo do aleitamento materno têm sido praticamente ignoradas no âmbito da psicanálise e mesmo da psicologia em geral. A abordagem da amamentação pela psicanálise é historicamente restrita à questão da constituição subjetiva do bebê e seus desdobramentos nas fantasias inconscientes dos adultos. Diferentes autores, seguindo suas próprias linhas teóricas (Freud, Klein, Winnicott, Lacan) debruçaram-se sobre a experiência da dupla mãe bebê tendo o aleitamento como paradigma dos primórdios desta relação num sentido que pouco ou nada se refere à condições reais em que esta se dá. O manejo em si, seus entraves e facilitações parece restrito à puericultura. Além de uma certa abordagem psicologizante, que por vezes ignora os aspectos biológicos e sociais, a psicanálise parece responder com esta omissão a uma outra questão. Vejamos.

Quando o aleitamento ignora o sujeito

Historicamente o aleitamento esteve associado à incumbência central da vida das mulheres, a saber, a reprodução da sociedade. Como condição para a sobrevivência de qualquer bebê nas sociedades estáveis, aleitar não era uma questão, pois não havia substituto à altura. Sendo assim, as mulheres exerciam esta função e pronto. Já na modernidade as mulheres começaram a encontrar soluções por meio das amas mercenárias. Os estudos de Badinter (1980) sobre este tipo de prática e os altíssimos índices de mortalidade infantil são famosos por colocarem em discussão a existência do instinto materno. O envio do recém nascido para a ama era prática corriqueira e em certa medida funcionava como um “controle de natalidade” uma vez que, não havendo contraceptivos confiáveis e com o aumento das populações, os bebês passaram a sobrar na contabilidade social. Se nas sociedades estáveis a sobrevivência dos bebês era uma meta devido às dificuldades com alimentação e segurança, na modernidade o acúmulo de riquezas e alimento inverteu a equação. Com este acontecimento inédito as mulheres puderam começar a pensar se desejavam ou não aleitar e em que termos. Na medida em que suas vidas sociais se tornavam mais atraentes e os bebês se tornavam estorvos, as que podiam se livrar do aleitamento assim o faziam.

Esta assunção do desejo feminino para além das prerrogativas socialmente impostas do papel de reprodutora é muita cara aos estudos feministas e psicanalíticos na medida em que as psicanalistas mulheres puderam apontar para a questão do desejo da mulher que, como sabemos, ultrapassa o âmbito da maternidade. Muitas vezes, as contribuição destas profissionais têm sido no sentido de denunciar a misoginia do fundador da psicanálise. Em função do lugar de disputa que o aleitamento passou a ocupar no imaginário, ora representando a dominação masculina sobre o corpo da mulher, ora a realização do desejo feminino, o estudo desta prática pela psicologia passou se recobrir de novo tabu. O medo de compactuar com a imposição do aleitamento fez calar a psicologia neste âmbito, restando apenas interpretações psicologizantes sobre os fracassos e sucessos do mesmo, ignorando as condições históricas, sociais e biológicas.
Reservemos este impasse científico e social que opõe feminismo, psicanálise e manejo do aleitamento e nos voltemos para outra questão.

A transmissão cultural da mãe desnaturada

Temos debatido sobre a importância da transmissão geracional dos hábitos de cuidados com os bebês nas culturas estáveis (IACONELLI, 2012). Transmissão esta que pode dar a falsa impressão de que existiriam mães naturais, sem necessidade de aprendizagem, para quem o instinto bastaria. Difícil acreditar numa suposição que não serve nem para os filhotes de macacos, uma vez que estudos mostram que estes animais, quando privados da observação da relação sexual de seus colegas mais velhos se vêem incapacitados para o cortejo sexual na vida adulta. Embora o instinto sexual possa ser identificável nestes animais, ele não prescinde de experiências e aprendizagem. Desta forma, acreditar que o instinto vai resolver as questões do aleitamento humano de forma espontânea é ignorar suas condições de existência.

Combinando fatores
Se consideramos:
1) o lugar do sujeito no aleitamento, ou seja, qual o desejo consciente e inconsciente da mulher de exercer esta atividade junto ao seu bebê,
2) quais as condições psíquicas para que este desejo seja sustentado e
3) quais as condições físicas de ambos (mãe e bebê) de vir a fazê-lo
teremos melhores resultados na qualidade da relação mãe/bebê, seja qual for a forma de alimentação escolhida.

Como exemplo temos a mãe que nos diz, numa cena corriqueira da clínica:
_Estou amamentando, mas meu bebê não ganha peso.
O psicólogo que puder escutar:
1) qual a disponibilidade subjetiva desta mãe para esta tarefa?
e, ao mesmo atentar para
2) qual é a qualidade técnica da mesma?
Talvez descubra que: esta mãe não conseguiu abrir mão de seus outros investimentos narcísicos para se voltar para seu bebê; ou está perseguida por uma avó voraz e demandante; ou sente inveja do bebê; etc, etc...
Mas talvez descubra, por outro lado, que esta mãe quer muito aleitar, mas que ela tem por hábito oferecer apenas dez minutos de cada seio por vez. Desta forma o bebê poderá estar ingerindo apenas água (leite anterior) ao invés de gordura (leite posterior).
Ainda pode ser que descubra que ambas as interpretações estão certas e se reforçam: o erro no manejo do aleitamento impedindo aquilo que a mãe não pode fazer (em função de uma fantasia inconsciente que lhe interdita fazê-lo) ou não deseja fazer (mas teme assumir para si).
Embora o manejo do aleitamento seja uma especialidade para a qual o psicólogo não está habilitado, o simples fato dele considerá-la importante cria o espaço de escuta e a eventual possibilidade do encaminhamento do paciente para alguém que possa suprir estas informações, que o grupo social não vem transmitindo mais. t´Estas informações, por seu lado, sempre foram acompanhadas dos olhares de aprovação e incentivo de outras mulheres e das adaptações a cada caso singular. Muito diferente da informação por internet e livros, ou ainda alguns intervenções profissionais tão dessubjetivantes que acabam por inibir a mulher neste delicado começo.
Pelo acima exposto, propomos um diálogo entre especialidades que amplie nossa escuta para contemplar o sujeito em suas vertentes social, corporal e subjetiva, ou seja, para muito além da glândula mamária, mas sem jamais ignorá-la.

Vera Iaconelli - Instituto Gerar 

10 de agosto de 2014

A importância da Paternidade no Desenvolvimento da Criança

A psicologia tradicional por muito tempo, manteve a figura paterna à sombra da materna relegando a sua importância somente depois dos 4 anos , quando a criança precisa da figura do pai para resolver o Complexo de Édipo.

Atualmente a psicanálise segundo alguns psicanalistas ( Lacan) a interação pai - filho é ainda mais precoce, desde que a criança nasce encontra uma relação estabelecida, na qual vai figurar como o terceiro elemento. E o triângulo está configurado, mesmo que o pai não exista fisicamente. Isto porque, por várias razões, a mãe tem internalizada em si a imagem do homem. O homem acomodou-se ao lugar que lhe sobrou e dai o estereótipo de. pai como ser absolutamente incapaz diante dos filhos, desajeitado para fazer as coisas mais simples como por ex: trocar uma fralda ou preparar mamadeira. O jeito era esperar que o filho crescesse um pouco, só então iniciar um relacionamento mais profundo.

O pai em uma família tem outras obrigações além de ganhar o pão de cada dia e de cuidar da sobrevivência material dos membros da família, aliás papel esse que muitas vezes é dividido com a mãe que trabalha fora. O papel do pai é insubstituível. Sabemos que os filhos homens olham o mundo com os olhos do pai durante um período da vida. A falta do pai no período de identificação pode causar o homossexualismo. A ausência da imagem paterno pode também significar uma ausência afetiva.,

As maiores fraquezas dos homens em seus relacionamentos têm sido a omissão e a ausência sentidas do pai. Depois de lutar para conquistar alguém que consideram importante, tendem a relaxar , perdendo o interesse pela pessoa amada. Essa tendência de valorizar mais o ato do que o de desfrutar aquilo que conseguiu leva-o a um permanente estado de insatisfação e um vazio existencial. O grande desafio para o homem em seu processo de crescimento, é aprender a ver a beleza do cotidiano, o fascínio da intimidade, a grandeza das coisas simples e saber renovar os relacionamentos com as pessoas que ama.

A ausência do pai nos filhos homens traz um sentimento de medo em relação às mulheres. O menino sempre se relaciona com uma mulher, a mãe, a professora, que tem no dia-a-dia poderes sobre ele. É ela quem irá julgar se ele é um bom menino, poderá viver gritando e até bater nele e indicará a todo o instante o que é certo ou errado. Ao procurar um jeito de torna-la feliz, de aprende a ver as mulheres como seres grandes, poderosos e temíveis. Por isso mais tarde, se sentirá tão inseguro, que passará a querer domina-las ou evitará compromisso para não se sentir ameaçado.

Para as filhas, a ausência do pai traz como conseqüência o amor a homens ausentes ou distantes, cujo afeto buscam conservar a qualquer custo, até mesmo com a anulação de si.

Muitas pessoas consideram seu pai como uma carta do baralho. Mas é bom lembrar que a maioria dos jogos não ocorre quando falta uma carta. Muitas vezes o jogo do amor não evolui na vida de uma pessoa porque ela se ressente da falta do amor paterno !

Cada vez que o filho se aproxima do pai e não encontra espaço para compartilhar sua vida, seus sentimentos, seja porque o pai está lendo o jornal, tomando cerveja, ou quando, aprende que seus sentimentos são menos importantes que a televisão, ou bebida. Para não se sentir rejeitado, acaba se fechando e desistindo de procurar o amor paterno.

A presença do pai possibilita ao filho manter uma profunda conexão com a figura masculina que de vai formando para sí, Terá no pai uma demonstração de que a felicidade se obtém na convivência com pessoas queridas e não aquela clássica imagem de que voltar para a casa é um martírio. A filha aprenderá, a valorizar o homem com quem poderá compartilhar o dia-a-dia. Não viverá sob o domínio do medo quase eterno para muitas mulheres de ser abandonada.

Aprender a conviver e desfrutar da companhia dos seres amados não é um favor que o homem presta aos outros, mas sua grande oportunidade de ter uma vida familiar mais plena.

Elaborado por Margarete Bueno Moscovo- CRP. 06/478