Um olhar psicanalítico sobre a gravidez

A gravidez é uma transição que faz parte do processo normal do desenvolvimento, neste período a mulher pode passa por momentos de ansiedade, pois durante o ciclo gravídico-puerperal, há reativação dos conflitos da mulher com as figuras parentais, que ocorreram durante o seu desenvolvimento infantil.
Além das mudanças corporais, também ocorrem mudanças psíquicas e sociais. Este fato é ainda mais acentuado, quando é a primeira gestação. Nesta fase a mulher deixa o status de filha e esposa, passando a desempenhar o papel de mãe.
Estar na condição de grávida não é vivido com o mesmo sentido emocional por todas as gestantes, esta notícia pode ser bem ou mal recebida dependendo da mulher, e a partir de então, várias mudanças podem ocorrer na vida desta, e independentemente de como é recebida a notícia ou de como esta encara a gravidez, não estará livre da ambivalência de amor e ódio pela gestação.
A qualidade do vínculo da grávida com seus genitores, em particular com sua própria mãe, nas fases mais precoces da vida, desempenham papeis importantes no curso da gestação atual.
Nos primeiros anos de vida, a menina estabelece em relação à mãe, conflito dual de amor e ódio, pois esta enquanto criança se encontra na condição de dependência dessa mãe, fazendo com que ela a teme, inveje e a odeie. Por outro lado esta dependência aliada a grande intimidade estabelecida entre mãe e filha,
despertam amor, carinho e grande afeição, assim, as lembranças inconscientes de agressividade e destruição ou de afetividade da mulher em relação a sua mãe ressurgem na gravidez. No desejo de ter um filho, influem causas racionais e conscientes, juntamente com motivações inconscientes de recuperar a própria mãe, identificando-se com ela.
O primeiro objeto de amor tanto para o menino como para a menina é a mãe. A mãe ao beijar, acariciar o bebê pode acabar estimulando e despertando sensações prazerosas na criança. Durante esta fase, o pai da menina é apenas um rival para ela. A menina expressa o desejo de ter da mãe um filho. Somente depois é que a menina vai afastar-se de sua mãe e voltar-se para seu pai.
Mas esse processo não ocorre como uma simples troca de objeto. O afastar-se da mãe envolve hostilidade e a vinculação com a mãe termina em ódio. Freud (1976, p 153) “Uma poderosa tendência a agressividade está sempre presente ao lado de um amor intenso, e quanto mais profundamente uma criança ama seu objeto, mais sensível se torna aos desapontamentos e frustrações provenientes desse objeto; e no final, o amor deve sucumbir à hostilidade acumulada”.
È neste momento que a menina percebe que não é o falo (pênis/objeto de poder) de sua mãe, e que sua mãe também não tem o falo, o possuidor do falo é o pai. A menina simboliza a falta de seu falo, a uma castração, culpando sua mãe pela falta e não a perdoa por ter sido colocada em desvantagem, sentindo muito ódio por ter herdando um genital insuficiente, que nunca lhe servirá para poder conquistá-la.
A menina recrimina sua mãe por falta de amor e por não haver se preocupado em tornar a filha alguém que pudesse com ela compor um casal feliz. Passada esta desilusão, a menina chega após muitos conflitos a reconciliar-se com seu próprio sexo, porém, esta durante sua vida poderá ter certo ressentimento por sua feminilidade.
Nessa primeira desilusão, o imaginário de que é castrada faz com que a menina volte-se para o pai com o desejo de possuir o falo que a mãe lhe recusou esperando agora obter deste. Esta situação se estabelece, quando o desejo de ter um bebê, ocupa o lugar do desejo de possuir o falo, isto é, o bebê assume simbolicamente o lugar do pênis.
A menina fica ligada ao seu pai na esperança de receber deste, o falo, pouco a pouco ela vai transformando este desejo em outro: receber como presente do pai um bebê. Com o tempo percebe que o pai não pode satisfazer este desejo, desilude-se com ele e se afasta pouco a pouco. O brincar de boneca serve como identificação com sua mãe, e ela pode fazer com a boneca tudo o que sua mãe faz com ela, a boneca-bebê se torna um bebê obtido de seu pai.
Quando a menina se dirige para seu pai, identifica-se com sua mãe passiva castrada, e sublima suas tendências ativas. Só muito mais tarde ao tornar-se ela mesma mãe, tem a oportunidade de viver sua atividade diante dos filhos. Para a menina a resolução do Complexo de Édipo conduzirá futuramente, à maturidade sexual e à feminilidade, concorrendo para este fim, à qualidade do vinculo com sua mãe nas fases mais iniciais da vida.
Futuramente, se esse desejo de ter um bebê se concretizar, será então reativado as primeiras identificações da mulher com sua mãe, podendo despertar sentimentos de agressividade e de culpa.
As crises decorrentes do período gravídico puerperal se dão a partir da reativação da história passada da mulher, em particular dos desejos infantis. A mulher pode vivenciar a gravidez, como sendo o filho obtido tanto do pai como da mãe.
Em seus pensamentos infantis a menina pode desejar um dia ter bebês de seu pai para se vingar de sua mãe. Se a gestante simbolizar a gravidez como sendo o bebê obtido de seu pai ela poderá desenvolver sentimentos de culpa em relação a gravidez, podendo ter pensamentos de que irá perder o bebê, que a criança poderá nascer com alguma anomalia, que não será uma boa mãe.
Simbolicamente este bebê, é sentido como fruto de uma relação incestuosa, além de que em suas fantasias infantis, ela em seu ódio destruía o corpo materno por todos os meios a seu alcance e segundo Freud nosso inconsciente é regido pela lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”,significando que somos castigados por nossas maldades e esperamos sempre que outras pessoas nos façam o mesmo, no caso a gestante pode inconscientemente temer ser destruída como represália por seu ódio à mãe.
Ao mesmo tempo a grávida pode ter sentimentos de culpa por ter superado sua mãe, pois antes somente ela poderia ter os bebês. Se o conflito persiste no predomínio das fantasias de triunfo sobre a mãe, em vez de reparação da imagem materna, a gravidez será conturbada por intercorrências e sintomas psicossomáticos.
As ansiedades também ocorrem com a proximidade do parto e da mudança de rotina da vida após a chegada do bebê. A ansiedade aparece conscientemente de várias formas: como temor ao filho disforme, medo de morrer no parto, ou como angustia do próprio corpo disforme e medo de parecer assim.
O puerpério é o período que se estende até aproximadamente seis meses após o nascimento do bebê, para muitas mulheres é sentido como uma segunda castração, pois lhe arrancam o falo.
Durante a gravidez a mulher ganha atenção especial, da sociedade em geral, em especial de sua própria mãe, que no inicio tinha uma relação quase que fusional com a mesma, onde esta mãe era o objeto de desejo da criança, esta pensava ser o falo da mãe.
Para Lacan a criança busca fazer-se desejo, de desejo da mãe, para agradá-la. Assim, muitas mulheres podem sentir o momento de sua gravidez como um retorno a estes primeiros momentos entre mãe e filha. A atenção que a mãe da gestante dá a filha grávida pode ser simbolizada pela grávida, como ela sendo novamente a possuidora do falo, que agrada a mãe, sendo este um bebê dela com a mãe, é com bastante freqüência que nos exames de ultra-sonografia obstétrica, a mãe da gestante acompanhe a filha. Lembrando também que nas primeiras semanas após o parto é a mãe da puérpera que a ajuda nos cuidados do bebê.
Com o nascimento da criança a mãe pode sentir este momento como uma segunda perda do falo, sentindo o parto como uma segunda castração. Este é um período em que a mulher fica muito vulnerável a ocorrência de crises devido às profundas mudanças intra e interpessoais desencadeadas pelo parto, este fato se torna mais acentuado quando é o primeiro filho.
A simbolização de uma nova castração leva a mulher a sentir novamente que não é mais o objeto de desejo do desejo de sua mãe, podendo assim ocorrer sentimentos ambivalentes em relação ao próprio filho, pois agora, ele é quem assume este papel de ser o falo da avó e não mais a filha grávida.
A ansiedade e depressão são comuns, pois a realidade do feto in-utero difere da realidade do recém-nascido. Tais sentimentos de hostilidades da mãe em relação ao bebê são recalcados, assim como os desejos ocorridos na fase Edipiana. Assim a mulher ao relatar suas lembranças do inicio de sua experiência de gravidez e pós-parto, dirá o quão maravilhosa foi esta relação inicial mãe bebê.
REFERENCIAS
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Fonte: http://psicoperinatal.blogspot.com.br/2011/05/um-olhar-psicanalitico-sobre-gravidez.html

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